Contra São Paulo

São Paulo está entre as dez maiores aglomerações urbanas do mundo inteiro, junto com Nova York, Tóquio e mais outras cidades onde o que se mais vê não é carro, como muitos dizem, ou lojas ou consumo desenfreado ou dinheiro. O que se mais vê por aqui égente.

Em NYC, a biblioteca municipal é lotada de noite. E, enquanto você estuda, vê de uma das janelas o Empire State iluminado (Foto de Juliana Cunha)

O que fazer com os moradores dessa cidade? São mais de 20 milhões de pessoas que vivem aqui que, quando saem de seus trabalhos ou quando estão livres nos fins de semana, querem sair, aproveitar a noite em um parque com um gramado limpo para deitar ou sentar. Ou uma opção de cinema com salas boas, com muitas opções de filmes. Ou uma rua, uma avenida ou uma alameda central, onde andamos sem muitos planos, vemos pessoas, lojas abertas e coloridas, lanchonetes com muitas opções de hambúrguer, restaurantes variados e com preços acessíveis.No fim das contas, temos um Ibirapuera, que a partir das 20h está às moscas, tornando o local perigoso e até mal visto. Não menciono os outros parques da cidade, mais localizados nos bairros de seus moradores, que fecham em horários inaceitáveis (vide a pça. Buenos Aires, em Higienópolis, que fecha às 19h! ou algo próximo a esse horário).

No fim das contas, tínhamos o Cine Belas Artes que, fajuto, muitas vezes com salas sujas, com uma programação ultrapassada e medonha – só lembrar dos exemplos máximos de filmes que ficaram em cartaz por cinco, seis anos, por capricho de um dono cheio de uma cinefilia desinformada – enfim, tínhamos esse cinema localizado no centro da cidade que fechou. Hoje, poucas opções seguram o barco dos cinemas das ruas, sendo que a maioria deles se volta a um público dito mais inteligente. Se salva na listinha o Marabá, onde é possível assistir a um Atividade Paranormal 5.000 sem a obrigação de enfrentar o shopping center.

No fim das contas, temos a avenida Paulista, abandonada, sem policiamento na rua, com crimes sendo cometidos a torto e a direito. De lâmpadas fosforecentes no rosto das vítimas a taco de baseball dentro de um cidadão que estava dentro de uma livraria lá escolhendo um livro de presente.

Temos a avenida Paulista, com muita gente andando na rua, mas jovens skatistas em sua maioria, ou “tribos” localizadas que se encontram por ali para beber aquela mistura de vinho com água com xarope de groselha na esquina com a Augusta. A Paulista está cada vez menos iluminada, com trechos onde é melhor evitar de noite. A partir de certo horário, 21h, tudo começa a fechar, as lanchonetes, as lojas e a cor e a luz dão lugar à insegurança. Famílias eu vejo poucas. Casais que gostam de passear, de andar sem compromisso, menos ainda. Eles estão nos shoppings.

São Paulo virou uma cidade voltada e dedicada a motoristas de carro. O passeio pelas ruas, a atividade do flâneur que errava pelas ruas de Paris sem plano ou direção, foi massacrado pelas grandes avenidas, interligadas por complexos anéis que dão acesso a diversos pontos da cidade de uma maneira fácil no meio desse formigueiro. Tal qual aconteceu com a Paris do século 19, após a reforma geral de suas ruas orquestrada pelo Barão Haussmann, sob Napoleão III, São Paulo vem sofrendo uma dramática mudança em sua urbanização insana.

Shopping centers se popularizaram nos anos 80 prometendo mais segurança, conforto e praticidade para as suas compras. Otto Baumgarten foi um desses idealizadores, com o Center Norte e alguns outros. OK. Nos anos 90, no entanto, esses mesmos megacomplexos de compra passaram a ganhar uma nova feição: de passeios. As pessoas não viam mais o shopping tão somente como um centro de compras, mas como um passeio. E, vinte anos depois, com mais shoppings e mais megarodovias e avenidas facilitando o acesso dos cidadãos motorizados a esses polos, o paulistano virou um ser condicionado a shopping. Ele compra, come, vê o filme, brinca no fliperama, anda. Tudo ali dentro.

Tenho receio de parecer suburbano e comparar essa situação lamentável de São Paulo à realidade completamente diversa de Nova York, que conheço tão bem quanto a cidade em que nasci. Mas fica difícil não comparar e lamentar como São Paulo ficou provinciana e mesquinha.

Nova York tem centenas de parques que ficam abertos, inclusive no inverno, até a 1h da manhã. E são movimentados de noite. São iluminados, são convidativos. O transporte público é estimulado e o metrô funciona 24h por dia e te deixa, no máximo, a três quarteirões de onde você precisa ir, tamanha a malha metroviária subterrânea de Manhattan (e do Brooklyn também). Você pode andar do Lower East Side, lá no sul da ilha, até o Harlem, no norte, às 23h da noite e vai ver ruas movimentadas, lojas abertas, lanchonetes e restaurantes com preços acessíveis, atividades, cinemas de rua, teatros. E principalmente: gente andando, devagar, sem planos, apenas respirando o ar da cidade.

Barão Haussmann matou a Paris das arcadas. Barão Baumgarten matou a São Paulo de minha infância. Espero que nenhum barão Rothschild ou algo assim mate a Nova York that never sleeps.

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