Steve McCurry e o fim da Kodak – último final de semana

A exposição Steve McCurry: Alma Revelada no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, ganhou ingredientes novos em sua reta final com a quebra da Kodak.

Entre as fotos expostas, está parte da série O último rolo de filme Kodachrome, a película fotográfica hegemônica por décadas entre os fotógrafos profissionais.

Cerca de 20 imagens feitas com esse último rolo estão lá nessa exposição que tem entrada gratuita.

A Kodak está pagando pelos seus erros. Apesar de ter ela própria inventado a câmera fotográfica digital nos anos 70 (tecnologia bem diferente da atual, registre-se), a empresa resolveu abrir mão do desenvolvimento do produto.Motivo? Supostamente, a câmera digital iria canibalizar o negócio das câmeras analógicas.

Beleza, então vieram um montão de outras organizações que desenvolveram as digitais e passaram por cima da Kodak, que provavelmente vai ter que vender suas mais de cem patentes relacionadas a fotografia.

Engraçado como o dilema da canibalização dos negócios atingem as grandes empresas e elas lidam mal com isso.

O Yahoo!, outrora hegemônico nas buscas na internet no final dos anos 90, parece ter feito que não viu a óbvia vantagem de buscadores como o Google e o Altavista, cujos robôs buscavam em toda a web.

No princípio, era preciso fazer um cadastro no site para que o buscador do Yahoo! reconhecesse e buscasse a página.

Outro exemplo li no livro O jornalismo dos anos 90, de Luis Nassif. Trecho sobre a estratégia do Grupo Estado quanto ao Jornal da Tarde na década de 80:

[O Jornal da Tarde] Poderia ter sido o veículo da família Mesquita a barrar o crescimento da “Folha”, que começava a se projetar. Avaliações internas concluíram, erradamente, que o crescimentodo JT poderia canibalizar o “Estadão”. Impedir o seu crescimento foi um erro fatal de avaliação.

Fora os populares, a Folha de S.Paulo é o jornal de maior tiragem do país na atualidade.

Em suma: vamos combinar que é melhor ser “canibalizado” (é sempre esse o termo, perceberam) por um produto seu do que o do concorrente, né? Imagina Steve Jobs retardando o lançamento do iPhone porque iria canibalizar o já praticamente finado iPod… non-sense.

Bom, a Kodak não entendeu isso e coube a McCurry trabalhar com o último exemplar de seu produto mais bem acabado.


Já li críticas ao trabalho de McCurry dizendo que ele vai a lugares exóticos que são lindos por si só.

Em contrapartida, já acharia meritório ir a lugares ignorados pelas lentes ocidentais. Mas as imagens do fotógrafo estadunidense vão além disso.

Os costumes e tradições são retratados de uma forma pura. McCurry se mistura à explosão de cores do oriente médio e expõe os sentimentos das pessoas envolvidas em rituais e práticas absolutamente estranhas para quem está do nosso lado do globo.

Vez ou outra ele cai no macetinho da ironia fácil para denunciar uma mazela ou parte fraca da sociedade (em especial as mulheres). Talvez quando incorra nesse tipo de imagem, McCurry realmente perca sublimação artística, mas seu punch conceitual é forte o suficiente.
Steve McCurry é mais conhecido pelo retrato da menina afegã que estampou uma capa da National Geographic nos anos 80.

A imagem virou símbolo de todos os refugiados que foram ao Paquistão durante a invasão da União Soviética.

Os retratos são o grande gênero de McCurry.

De novo, seu trabalho parece simples. Seus personagens são retratados geralmente com um enquadramento centralizado, luz plena, com pouca sombra, olhar firme na lente e fundo desfocado (na maior parte das vezes).

Aos que dizem que é simples, só posso os desafiar a pegar uma câmera, ir a um país de idioma e culturas diferentes ao seu e pedir para as anônimos posarem. Ah, e sem cair em arquétipos fáceis ou caricaturas ou bizarrices.

Esse método de retratar de McCurry parece tentar borrar o fotógrafo. O que pesa na imagem é realmente o retratado. Suas expressões “neutras” (assumamos como neutra as caras de olhos abertos, boca fechada e sem contração relevante de músculos faciais) carregam mistério, cultura, exotismo, intriga e, mais importante, vida.
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As pobreza das legendas nas fotos me incomodou.
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Steve McCurry: Alma Revelada vai até o dia 29 de janeiro, mesma data do fim de Queremos Miles!, outra exposição gratuita, no Sesc Pinheiros.

Dá para fazer as duas visitas em uma tacada só. A estação Faria Lima fica perto do Tomie Ohtake e do Sesc Pinheiros. Dá para ir caminhando de um ao outro em dez minutos.

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