A van impressionista

Gostei de tudo na Virada Impressionista do CCBB, menos da tal van que levava as pessoas de madrugada.

Não me entenda mal. A ideia de ocupar o centro é belíssima e pode ajudar a resolver boa parte dos problemas da região. No mais recente post do Thiago, ele deixou a bola picando sobre os bairros descaracterizados por causa dos investimentos imobiliários. Ora, em São Paulo isso aconteceu em vários pontos, mas o centro foi a principal vítima, sendo esvaziado por ofertas mais tentadoras em outras regiões. A região da Berrini hoje tem uma coleção de escritórios e empresas que fariam muito mais sentido no centro da cidade até alguns anos, por exemplo.

É, estou respondendo a pergunta do Thiago de um jeito malufista – claramente ele está falando dos bairros “invadidos” -, mas é bom também olhar a outra ponta do vetor. Desde o fim do pregão da Bolsa, o centro se deteriora. E isso que a prefeitura está ali do lado, com vários mandatários apenas observando do último andar do prédio encostado no viaduto do Chá a degradação.

Aí vem a Virada Impressionista, evento do CCBB que virou a madrugada no dia da inauguração da mostra Impressionismo: Paris e a Modernidade. Lindo, colocou um monte de gente frequentando de novo as belas ruas da região central. Só que tinha uma van (veículo que em épocas nefastas chegou a ser chamado de perua) fazendo o trajeto rua da Consolação – CCBB. Uma conexão entre a parte “civilizada” do centro e um oásis artificial e temporário criado em meio a selva.

Parem com isso. A distância era o ensejo perfeito para uma caminhada. Tem que fazer as pessoas ocuparem de verdade o centro, não me venha com bolhas exploratórias. É dureza ver o monte de morador de rua que se aglomera diariamente nas imediações da saída do Metrô São Bento, eu sei. Mas é bom tomar conhecimento disso.

Hoje não tem mais a van, mas é fácil de chegar ao CCBB com transporte público. Reforço o que todo mundo está dizendo: vale muito a pena visitar a exposição. Impressionismo: Paris e a Modernidade do CCBB não traz toda a nata dos trabalhos do acervo Museu d’Orsay, na França. Mas fato é que estão todos os medalhões impressionistas: Monet, Manet, Cézane, Courbet, Pissarro, Degas, e companhia ltda.

Os 80 e poucos quadros expostos em São Paulo mostram bem a técnica que cada um desenvolveu e as discussões que deram destaque ao grupo. Por mais que sejam artistas com soluções bem diferentes (o impressionismo não tinha um caráter dogmático), os temas retratados, o rompimento definitivo com a tentativa de reprodução do real, a luz cobrando presença, o movimento, etc.

Essa turma inaugurou uma ideia de movimento artístico que tem força até hoje, com um discurso ideológico sobre a arte. Se é novidade tudo isso que descrevi (e você não tem obrigação nenhuma em saber), vale a pena começar a exposição pelo 1º andar. Lá há um documentário bem didático sobre os impressionistas.

Depois tem até uns adesivos com locais típicos de Paris para você tirar fotos…

Tá, isso é cafona, mas o resto da amostra é ótima.

Agora que te convenci que não sou um cara rabugento, registro que não precisava confundir tudo com o nome da exposição. Impressionismo: Paris e a Modernidade, aff. Ok, tem Cézanne que é uma espécie de pai da criança modernista, mas modernismo meeeeesmo não há. Picasso, Matisse, Miró, Pollock, Rothko, Tarsila e companhia não se fazem presentes. Aí eu pergunto: com uma enormidade de possíveis nomes para essa exposição, tinha que dar um que se confunde com outro movimeno artístico?

Ainda tem “Paris” no título, sendo que boa parte das obras expostas foram feitas fora da capital francesa. Ai, ai…


Retomando o assunto madrugada, ficou claro que São Paulo tem uma demanda potencial por eventos nesse horário além do tripé show/balada/bar. A Cecilia relatou que levou quatro horas para conseguir ver a exposição e eu estava junto.

A ideia de ir “lá pelas 23h passadas porque a essa hora já deve estar vazio” foi minha. Mais uma prova de que meu faro para hypes está completamente descalibrado.

Na Feira Gastronômica apostei que algumas horas depois da abertura o povo teria se disperçado. Errado, tive que dar meia-volta e ir para casa comer miojo.

Na Virada Cultural, achei que sobraria umas barracas de comida no Minhocão pós-cataclisma Alex Atala. Não tinha mais nada.

Espetáculo de dança na galeria Olido? Hora, quem vai querer ver isso? Tive que assistir a bagaça na diagonal, pois os lugares estavam esgotados há três horas.

Precavido, na estreia de um filme sobre Auschwitz no Cine Unibanco cheguei horas antes. Vazio, podia ter comprado na hora o ingresso, tranquilamente.

Jurava que o CCBB nunca mais teria a superlotação da época do Escher. Mais um chute errado meu.

Acho que vai chover amanhã.

O Dath Vader com Guarda-Sol, de Monet, é uma das grandes faltas sentidas na exposição expressionista do CCBB

O Dath Vader com Guarda-Sol, de Monet, é uma das grandes faltas sentidas na exposição expressionista do CCBB

CONTEÚDO DE:
arte, cidade

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Uma resposta a A van impressionista

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