O último jornal feito a mão do mundo

O Global Voices Online é um site que reúne centenas de pessoas que cobrem, direta ou indiretamente, mídias sociais pelo mundo. De acordo com o “About us” deles, dizem que são mais de 400 colaboradores, entre jornalistas, blogueiros e tradutores. Acompanho o site já há algum tempo. Tudo começou em Harvard entre 2004 e 2005 quando a então diretora da sucursal oriental da CNN (em Pequim e Tóquio), Rebecca MacKinnon, se juntou a Ethan Zuckerman, especialista em tecnologia, e viram que em um mundo cheio de discursos, relatos, fotos e vídeos compartilhados, tudo fora da grande mídia, poderia haver um filtro que traduzisse isso em matéria para reflexão e informação.

Nesta semana eles postaram um vídeo de uma matéria de pouco mais de dez minutos mostrando algo que eu não esperava mais ver, não em 2012. Um jornal diário escrito a mão, sem máquinas datilográficas, sem teclado do computador. Tudo a mão. O jornal, que se chama “Musalman”, é provavelmente (de acordo com a revista Wired) o único ainda feito nesses moldes no mundo inteiro. Escrito em uma das infinitas línguas oficiais da Índia, o urdu, é rodado desde o seu início em 1927 e não teve um dia que parou a produção.

CRÉDITO: Scott Carney/Wired

Repórteres, editores e departamento de arte se unem para trazer notícia e opinião aos leitores da cidade de Chennai diariamente. Mais do que isto, preservam a importância da caligrafia para aquela sociedade que vê na escrita uma forma de resistência e uma maneira de preservar uma tradição. São quatro pessoas fixas que trabalham na redação, mas os colaboradores são vários (poetas, inclusive), em uma tentativa de manter uma tradição que está por um fio ou, em um caso mais desesperado, de recuperar uma identidade já perdida de seu povo e leitores.

Pela caligrafia, que sempre foi um símbolo de status pela qual todas as relações sociais da Índia foram realizadas por séculos, cria-se uma marca impressa que consegue atingir o leitor no que ele mais preza (ou no que ele deveria voltar a prezar), que é o diálogo direto, sem a intervenção gráfica das máquinas e das datilográficas. Como uma carta, como uma mensagem preciosa que precisa ser transmitida.

O vídeo, que infelizmente não tem tradução para o português (está em inglês), é longo, mas merece ser visto na íntegra, não só para acompanhar a delicadeza desses jornalistas, mas também para conhecer um pouco de como essa profissão pode sobreviver nas circunstâncias mais exóticas e inesperadas. Mais: é um jornal muçulmano e um verdadeiro exemplo de liberdade democrática no sul da Ásia, empregando mulheres e não muçulmanos.

Uma dica: a partir dos 2m40s do vídeo, começa a matéria mesmo, com depoimentos dos editores, repórteres e com imagens do trabalho diário dessas pessoas.

CONTEÚDO DE:
cidade, tecnologia

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