Qual é a-tua-ção nas redes sociais?

Na era da informação e da imagem é preciso decodificar para saber de que estamos falando.

As redes sociais têm contribuído muito e em muitos sentidos no que chamamos de comunicação. Mais ainda no quesito de passar informações massivamente e de forma rápida. A verdade é que muitas vezes nessas “campanhas” do tipo salvem a baleias existem interesses encobertos que nem sempre, na pretensão de pertencer, detectamos.

O outro dia vi uma foto numa rede social que dizia: “O cinema 3D já existe há muitos anos se chama teatro”.

Fiquei uns minutos refletindo a frase. Não tem ponto de comparação, pensei. Talvez se trate de algum tipo provocação para gerar alguma disputa entre as pessoas que trabalham ou gostam do teatro ou do cinema. Mas é uma afirmação leve demais e com tom de briguinha que não passou despercebida, pelo menos para mim. E demorei alguns dias mastigando essa frase tentando entender o que há detrás da gracinha.

É absurdo criar esse tipo de campanhas. Não é questão de decidir ou de definir pelo resto da sua vida uma preferência. São linguagens diferentes e, geralmente, muitos atores que trabalham em cinema também fazem teatro e vice-versa em algum momento da sua vida, e nem sempre por escolha, senão por tra-ba-lho.

O mais triste é que geralmente o alvo desse tipo de… fotos (?) são as mesmas pessoas que estão envolvidas no mercado ou que têm pretensão de se envolver e, na arrogância de tentar ser alternativos, embarcam em discursos alheios que só alimentam ainda mais o ódio de quem já tem rejeição pelo teatro. Ponto negativo.

Nem toda família que tem um integrante que um dia se despacha com “quero fazer teatro” fica feliz. Preconceito talvez? Ignorância?

É claro que se seu filho escolhe ser advogado ou médico está contribuindo com o mundo, mas, hoje em dia, questionar que o teatro não tem caráter acadêmico e científico, perdão, mas é ignorância. E sua contribuição como corrente filosófica transformadora social historicamente também não tem questionamento. Mas é algo que muitos preferem denegrir por temor dessas mesmas transformações sociais que poderiam acontecer. Afinal de contas, em uma sociedade mais pensante e analítica vender coisas vazias de conteúdo seria bem mais difícil.

Na mesma rede social encontrei outra foto. Uma que também me fez deter um tempo. Primeiro para deglutir e depois para tentar entender o que é que as pessoas (alheias ao teatro) achariam disso.Como sua avó te vê. Como seu pai te vê. Como seu vizinho te vê. Como você se vê. Como realmente é. Como realmente é me pergunto? Teríamos que lhe perguntar a cada ator para que nos conte como é que é. Não é?

Nessa campanha, aparentemente inocente e engraçada sobre o trabalho dos atores, há uma profunda necessidade de querer desestabilizar a quem decidiu fazer do teatro sua profissão. E também, por que não, continuar contribuindo com “esse” inconsciente coletivo que vem de antanho sobre a profissão misteriosa dos atores.

Pessoas as há de muitos tipos. Mas se trata de pessoas, não de trabalhos. Se você é pai e seu filho escolhe que vai fazer teatro, não adianta dizer que não. Posso falar que 90% dos atores que conheço no Brasil os pais foram contra essa escolha.

Em última instância a quem querem confundir? Para quem é essa mensagem que querem passar? Mas a minha maior curiosidade é o que pensam os atores ou aspirantes que colocam isso no seu mural.

As redes sociais são subestimadas desde que tudo ali é banal. Vale tudo. É o espaço democrático propriamente dito por excelência. Ninguém pode censurar e todos podem opinar qualquer coisa de qualquer um. Muito bom no marco do bom senso, senão…

O espaço está mais além do bem e do mal e sua banalização faz com que a função mais importante que seria se expressar e comunicar adquira um caráter gratuito demais.

Perdem-se assim na maré de desperdícios algumas coisas que mereceriam realmente nossa atenção. Ver lá fora. Como estão se organizando outros coletivos de teatro para levar adiante a sua atividade e talvez se inspirar um pouco, se solidarizar em outros casos.

Outra foto da mesma rede social diz: “O ator tem a obrigação de olhar tudo”.
Quanta responsabilidade. Que trabalho, quanta exigência. E quando diz olhar, não se trata simplesmente da função orgânica de ver, senão de um olhar intencionado com um pressuposto posicionamento político e ideológico. Isso tem mais a ver com o verdadeiro trabalho do ator.

Já não adianta pensar que as redes sociais estão fora dos movimentos artísticos. Esse posicionamento hippie demais esta ultrapassado. A verdade é que essa ferramenta existe e temos que aprender a discursar nela. E já que vamos ter um olhar nas redes sociais como essa intenção intencionada, que tal ver as comunicações dos colegas atores, por exemplo?

Na Argentina não existe o sistema de editais que tem aqui no Brasil. Os colegas atores que não trabalham no circuito comercial se juntam em cooperativas teatrais pelo prazo que dure a temporada da peça que estejam fazendo. A produção geralmente é independente, ou seja, dos mesmos integrantes do elenco.

E só existem duas associações que, de aprovar o projeto, dão algum dinheiro (quase simbólico) para a montagem da peça. Na verdade esse dinheiro, se vem, é para recuperar parte da inversão que se fez.

No dia 11 de julho me chegou pela rede social Facebook um comunicado de imprensa da ARTEI, uma associação civil sim fins de lucro dos responsáveis por teatros independentes da cidade de Buenos Aires. Eles geram projetos, intercâmbios artísticos, mas principalmente a agrupação é um espaço para enfrentar as dificuldades do âmbito teatral.

Nesse comunicado há a denúncia de que a entidade não tem recebido nenhum dos subsídios de funcionamento correspondentes ao ano de 2012, que outorgam PROTEATRO e o Instituto Nacional Del Teatro.

Nesse sentido, muito importante são as redes sociais para poder fazer denúncias públicas e massivas, como também para conhecer as condições nas que se faz teatro em outros lugares e apoiar para melhorar as condições, não só do colega, mas também da atividade teatral como movimento cultural.

A próxima vez que postar no seu mural alguma coisa relacionada com o teatro, reflita se realmente condiz com o que você pensa desse trabalho.

CONTEÚDO DE:
arte, tecnologia

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