O novo filme de Wes Anderson

Aproveitei essa semana que passei fora do Brasil para assistir a alguns filmes que vão levar um tempo para estrear por aqui. E um deles foi o novo do Wes Anderson, o Moonrise Kingdom.

Para quem conhece a obra do diretor, algumas marcas continuam ali: as cores, o pai ausente (ou a busca por um pai), o amor exótico e proibido, os cortes teatrais de uma narração que parece se interpor todo o tempo entre você ali no cinema e a telona, a dizer: “olha, estou aqui, estou controlando a história, e agora vou fazer esse corte brusco, atenção”. A narrativa mantém a mão dada com o espectador do começo ao fim, ora mostrando os detalhes de um quarto trancado, com capas coloridas de livros imaginários, ora adiantando alguma tragédia que está prestes a acontecer. Como um guia te alertando em uma floresta a ser explorada: pule aqui porque, se cair, a queda pode te levar à morte.

E a morte é outro elemento do estilo de Anderson que é recuperado em Moonrise Kingdom. Lidamos aqui com uma história que elege duas crianças apaixonadas que, para concretizar esse amor, fogem de suas famílias, de seu campo de escoteiro, de sua cidade. Ela foge com a vitrola roubada de um dos irmãos e o gato, enquanto ele foge com um cachimbo e algumas bugigangas fabricadas por ele mesmo. Todos surtam e a morte parece estar à espreita desse casalzinho a cada obstáculo. E é aqui que a narração interfere ainda mais na história: olha, eles vão sobreviver por causa disso, disso e disso. Mas olha, aqui eles vão se dar mal, afinal de contas quem pode contra um raio em uma tempestade?

Ou seja, existe uma tensão presente no filme, mais do que em qualquer outra história de Anderson. A morte não pode separar esse casal tão simpático e ela está lá o tempo todo em forma das ameaças mais diversas. E como estamos tão perto deles, torcemos e ficamos preocupados. Não há, eu acho, a distância emocional dos filmes anteriores. Apesar de simpáticos, engraçados, exóticos, não ficamos ali torcendo por eles. Já em Moonrise há essa carga afetiva direta entre projeção e público.

Tenho sempre uma certa dificuldade em acreditar no universo que Anderson apresenta em seus filmes. E não é fácil mesmo comprar o trauma de determinado personagem pois suas cores são muito carregadas e, muitas vezes, os personagens parecem se comportar de acordo com um único padrão, que é o exotismo em reflexo ao próprio cineasta. No entanto, a mágica parece funcionar desta vez e a gente acredita em tudo logo de cara, quando no começo do filme vê uma casa de árvore em uma altura impossível (ver trailer abaixo). Por quê? Ter focado a história em duas crianças nos transporta ao terreno das memórias, onde recriamos as mais diversas imagens, pintamos com uma mentira ali e aqui, e tudo se torna real. Mais do que real, condiciona as nossas existências. Sem essa pequena intervenção da memória, não teríamos como sobreviver com os traumas, frustrações, fobias e as experiências reveladores do passado.

Wes Anderson nos transporta a esse domínio com caminhos que vão pra trás e nunca pra frente. No que considero o melhor de sua filmografia, os seus personagens parecem sempre voltar atrás, seja em termos de distância, mas também em decisões, que é um outro assunto bem mastigado dentre os motivos do diretor. Voltar atrás, recuperar-se de uma decisão mal feita – quem não se lembra dos Tenenbaums lidando com escolhas erradas do passado? Ou o Mr. Fox. Mas aqui, reitero, há essa ideia do retorno ao cotidiano infantil, onde a gente faz o que quer, foge pra floresta, dança e começa a tirar a roupa na praia ouvindo Françoise Hardy, mas descobre que aquele momento não vai durar. E a gente cai direitinho nessa lógica cruel da vida, aprendida lá nos primeiros anos de vida: tudo é possível, mas nada é para sempre.

CONTEÚDO DE:
arte

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2 respostas a O novo filme de Wes Anderson

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