A palavra dispara do cano com violência e chega ao peito da vítima de forma dura: gentrification. E não é de hoje que esse nome domina boa parte dos debates urbanos de Nova York, cidade de onde escrevo nesta semana.
Quem assistiu ao filme Faça a Coisa Certa, de Spike Lee, de 1989, vai se lembrar do termo. Há uma cena em que o diretor mostra grupos de origens distintas discutindo algum assunto banal que acabara de acontecer ali, nas ruas de Bedford-Stuyvesant no Brooklyn. São latinos, negros americanos, chineses, brigando pelo espaço que consideram seu, como se um documento de identidade tivesse caído no chão e todos quisessem correr para pegá-lo. Há em Nova York, apesar de seu melting pot, essa busca meio iludida de preservar as origens do local. O bairro negro tem que continuar sendo negro para sempre, tal qual o bairro judeu, o bairro latino, o chinês, o croata, o lituano. Escolha uma nacionalidade aqui em NYC e você encontrará um grupo se dizendo detentor de determinada região, bairro, ou às vezes até de um simples quarteirão.
Gentrification é o processo contrário, infeliz ou não, de todo esse idealismo que os grupos têm. O bairro por qualquer razão se valoriza, atrai pessoas de fora, o mercado imobiliário se acirra, os aluguéis aumentam, e as pessoas dali “originárias” não conseguem mais ficar. Têm que procurar outro bairro parecido com o valor que pagavam no anterior, antes da valorização. É um processo econômico, mas de escala e importância sociais dentro de uma mesma comunidade que luta por manter suas características, seu mercadinho específico para atender àquele público (às vezes até com atendentes que falem aquela língua). Pra se sentir em casa.
Aconteceu em Williamsburg, bairro também do Brooklyn coladinho em Manhattan, e hoje a região se tornou símbolo do que significa esse processo todo. Acabou sendo caracterizado por ser descaracterizado: os chamados hipsters com certa grana no bolso, vestidos de modo extravagante e às vezes forçado (parecendo uma fantasia) se misturando a yuppies com alto poder de compra. Há um episódio do seriado Girls que mostra bem isso: o carinha que as meninas conhecem é um riquinho, coxinha e mala (que quer ser DJ nos tempos livre) que acaba de comprar uma cobertura em Williamsburg.
Saindo de Williamsburg, mas continuando em Girls. Boa parte do programa de TV se passa em Bushwick (além de Park Slope, se eu não me engano), bairro de onde sai esse texto. Em um dos episódios que tem o nome do bairro no título, as quatro meninas vão para uma festa misteriosa de endereço incerto aqui. Terminam mal – uma delas com overdose de crack. Muito diferente do visual “hello kitty soft porn” de Williamsburg, com seus riquinhos e coxinhas.
A pessoa que me hospeda em sua casa mora em Bushwick há quase dez anos. Conversando com ele sobre esse processo de gentrification, ele não crê que isso tem ocorrido ou vá ocorrer com o bairro. A região é muito industrial, cheia de galpões e visualmente feia, sem apelo para qualquer pessoa um pouco mais endinheirada. O que tem ocorrido de fato é o crescimento da cena musical aqui. De acordo com ele, só em 2012 abriram mais de 20 bares no entorno da casa e as bandas têm vindo tocar aqui para tocar em casas oficiais ou em galpões abandonados (ou seja, ilegalmente). Voltando da estação do metrô pra casa – uns três quarteirões – eu ouço bateria, guitarra e baixo vindo de algum lugar.
Comparo a região aqui um pouco com a Barra Funda, em São Paulo, guardadas as proporções todas possíveis. Há poucos anos – e ainda tem gente que aposta nisso – a região, conhecida por ser industrial, passou a criar um “hype” próprio, vindo especialmente da música. Mas nada aconteceu e o temido processo de gentrification ficou em suspenso. De todo modo, comparar com Nova York é mais difícil, trata-se de uma outra realidade e disposição urbanas que atendem a interesses e hábitos completamente distintos.
Voltando e retomando, não creio que Bushwick vá passar por esse processo. Conversando por aqui, a próxima grande aposta é Coney Island, no extremo sul do Brooklyn. De frente pro mar, a região sempre foi conhecida por receber o povo de NYC que não tem muito o que gastar. Dar um giro na montanha-russa, até poucos anos, era US$ 2. Hoje passa dos US$ 15, dependendo da atração. Atirar dardos, que você pagava uma moedinha de 25 cents, hoje está quase US$ 4. Se um parque de diversão já mostra isso, o próximo passo é aumentar a comida no restaurante, o suco, a compra do mês no mercado, e, por fim, o imóvel onde você reside. E você vai pra onde? Pro mar, o próximo passo é ir pro mar e não se afogar, como brinca Spike Lee em uma boa entrevista aqui.
O peso da palavra gentrification vem dessa espécie de expulsão silenciosa de um grupo por outro, geralmente o mais pobre sai porque o rico vai pagar mais ali. Aconteceu em Williamsburg, vai acontecer com Coney Island – e dizem estar acontecendo com Crown Heights, outro bairro que era muito simples do Brooklyn.
É fácil, a partir daí, cair na discussão racial fácil: o branco tomando o lugar do negro (o negro, que ainda é maioria absoluta no Brooklyn). Não sei se esse é necessariamente um problema, mas ao mesmo tempo reconheço a complexidade cheio de tons de preconceito racial que domina o tema.
Seria legal conversar sobre isto no contexto de São Paulo. Quais são os bairros que perderam suas características em nome de um investimento imobiliário e maior apelo cultural ou midiático? A Barra Funda é um exemplo a ser citado como sucesso ou fracasso? Passo a bola para quem do grupo aqui quiser continuar o assunto.
















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