Por Florencia Escudero
O dia 20 de outubro de 1896, Anton Tchekhov estreou sua primeira peça: A Gaivota. Nem o diretor, nem os atores, nem o público conseguiam entender o lirismo da obra. Os críticos também ficaram confusos: a peça não respeitava nenhuma das unidades aristotélicas de espaço, tempo e lugar, os diálogos eram triviais e o herói acaba morrendo. A estreia foi um fracasso como poucos na história do teatro.
Depois de muito tempo e muitas reinterpretações, a crítica finalmente entendeu, o publico mudou seu pensamento e os atores até começaram a brigar por ter um papel nas peças do grande Tchekhov… Mas, como todos os heróis das suas historias, o escritor morreu de tuberculose pouco depois de ter mudado a historia do teatro.
A proposta de Donka: uma carta a Tchekhov é homenagear a vida e o trabalho do escritor, mas o resultado ultrapassa a simples homenagem. O espectador fica preso desde a primeira cena num mundo de imagens oníricas e musica tradicional russa, que fazem referência à vida e à imaginação do escritor.
Os conhecedores de Tchekhov vão achar muitas alusões sensoriais e pequenos detalhes das peças e contos, representados nas acrobacias, na dança e até nas sombras dos atores. Mas as ligações entre as obras e as imagens não são obvias, o que faz a peça muito mais interessante. Por exemplo, na primeira cena os atores aparecem supostamente bêbados, dançando e cantando, enquanto jogam bolas vermelhas, há dois gongos gigantes nos extremos do cenário. Os gongos, além de serem bonitos e criarem uma estética atraente no cenário, remetem às machadadas que anunciam o fatídico final de “O jardim das cerejeiras” (1904), aquele “ruído distante, como se viesse do céu…” soa na mente do leitor e nos ouvidos do espectador durante toda a peça.
Também estão bem realizados os diálogos sem sentido que tanto aborreciam ao publico da época, com todos os personagens falando ao mesmo tempo de coisas triviais e cotidianas, como na vida mesma. O diretor até incluiu ao personagem absurdo, esse que interrompe gritando uma frase que o obceca e que não tem nada a ver com nada, só para quebrar a tensão da cena.
Então, para o ávido leitor de Tchekhov, Donka é como fazer uma viagem à imaginação do autor para encontrar todos os elementos que o empurravam a criar essas maravilhosas peças que a gente conhece e ama. Mas para o ávido leitor de, sei lá, etiquetas de shampoo, a peça também faz sentido. De fato, no sábado passado, no Teatro Sérgio Cardoso, havia pessoas de todas as idades, incluindo crianças que (imagino) nem sabem quem é o Tchekhov. Os atos de contorção, malabarismo, trapézio, canto, as brincadeiras e os palhaços arrancam aplausos de toda a plateia, e são bem merecidos.
Enquanto o Tchehov pegava um pedaço da vida de uma pessoa e com isso escrevia uma peça; em Donka o diretor pegou um pedaço da imaginação do Tchekhov e lhe concedeu vida, respeitando o lirismo e a leveza com que o escritor representava a vida das pessoas. Eu, uma ávida leitora de Tchekhov, e meu namorado, um ávido leitor de etiquetas de shampoo, saímos do teatro com a mesma vontade de assistir a peça novamente.
A peça foi exibida de 26 a 29 de julho no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, e agora vai para o Rio de Janeiro. Estará no Teatro Carlos Gomes nos dias 2, 3, 4, 5 e 6 de agosto (entradas: R$ 25 meia e R$ 50 inteira). Cariocas, não percam!
Se você mora em São Paulo e não conseguiu assistir à obra, saiba que há grandes chances de que volte ano que vem. Este é o terceiro ano seguido que Donka vem para o Brasil, sempre em julho ou agosto. Aliás, em 2011, o João assistiu a peça e escreveu um post aqui no Trilhos.




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