Após fazer uma vultuosa coleção de escândalos, o ator Charlie Sheen saiu em turnê nos Estados Unidos. Em suas apresentações carregadas de improviso, repassava histórias de sua vida recheada de polêmicas. Relatou alguns dos casos mais destacados nas revistas de celebridades dos últimos meses. Aqui no Brasil, Alexandre Frota fez algo do mesmo nível.
Antenada com os novos formatos, assim como os dois famosos a atriz e cantora Bibi Ferreira resolveu fazer um show onde relembra alguns pontos de sua carreira. E olha que a trajetória é longa. Bibi praticamente nasceu e hoje está com 90 anos.
A diferença essencial entre Bibi e as celebridades baderneiras é que ela faz arte. A proposta de Bibi, Histórias e Canções, em cartaz no teatro Frei Caneca, é relembrar alguns dos grandes momentos marcantes para o teatro brasileiro. A viagem é feita junto de uma orquestra com pouco mais de 20 competentes músicos. Se o show de Bibi fosse um jantar, diria que os membros do conjunto musical têm estômago de avestruz, tal é a mistureba que eles devem encarar (explico em um segundo).
A estrutura tem improvisos também. O maestro faz as vezes de entrevistador e pede para Bibi contar alguma passagem de sua vida. Ele dá a deixa e Bibi, claro, tira de letra, sempre com bom humor. Filha de Procópio Ferreira, o palco é a segunda casa dela. Mesmo com algum desconforto pela iluminação desincronizada na estreia do dia 10 passado, Bibi soube entreter sem apelar (se alguém ainda estava procurando paralelismos entre ela e os dois comediantes viciados em palavrões que por picardia comecei este texto, é melhor tirar o cavalo da chuva). Invariavelmente, a passagem biográfica é marcada por alguma música. Esteja pronto para gêneros díspares.

Em Bibi, Histórias e Canções, o espectador vai ficar sabendo que a primeira língua que Bibi aprendeu a falar foi o espanhol. Antes de completar um ano de vida, ela foi para Buenos Aires e lá disse suas primeiras palavras. Mas isso não a faz menos brasileira. Ao contrário. Sua criação erudita e eclética fez enaltecer uma das principais características brasileiras, que é a mistura sem preconceito. Bibi sintetiza bem a nossa propensão a quebrar protocolos e desrespeitar rituais. Em seu show, coloca letra de Pixinguinha na ópera de Rossini. Acompanhada por uma orquestra, a mistura surpreende. No começo, é para rir, ao melhor estilo ópera-bufa. Depois, Bibi passa no mesmo fôlego a cantar o famoso trecho mais famoso da ópera original do Barbeiro de Sevilha, Fígaro. Apesar da cena ter sido escrita para um barítono, Bibi faz arrebatadora performance. De arrepiar qualquer um que prestar atenção na melodia desse clássico. Chocante para quem levar em conta que a protagonista do show é uma nonagenária que, com energia de sobra, não desafina nem atravessa. Nostalgia pura para quem cresceu ouvindo esse clássico com o Nono. Vale também quem conheceu com o Pica-Pau:
(Infelizmente, não podia filmar, mas fiquei o show inteiro com uma coceira…)
As misturas são a tônica de um set list que combina standards da música americana, MPB, fado, tango, entre outros gêneros. Há também um momento para as obrigatórias interpretações da cantora francesa Edith Piaf, fase das mais pedidas pelo público, e de grandes espetáculos contracenados por ela, como Gota d’Água.
A única característica em comum em toda essa mistura é a boa qualidade das letras. Bibi é intérprete, figura que vem em declínio desde que Bob Dylan disse ser cantor (“se aquele cara com aquela vozinha canta, eu também posso”, disse um bando de artista de meia-pataca incapaz de compor uma estrófe que chegue aos pés do mestre do folk). A letra da canção é o combustível do intérprete. Com todo o respeito por Michel Teló, mas Bibi não serve para cantar Ai se eu te pego – e eu já deixei bem claro que não vejo problema nenhum no sucesso desse gremista. Por suas exigências, Bibi é uma raridade na cena cultural brasileira.
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Bibi, Histórias e Canções está em cartaz no teatro do Shopping Frei Caneca até 30/9. Sex. e sáb. 21h; dom. às 19h. O Teatro Shopping Frei Caneca fica na rua Frei Caneca, 569, 6º Andar, Cerqueira César. Os ingressos custam R$ 120 e podem ser adquiridos no ingressorapido.com.br.
Crédito das fotos: Divulgação/Studio Prime
PS: fãs, não levem tão a sério meus comentários sobre Dylan. Não valho a pena.
PPS: Miguel Arcanjo Prado também escreveu sobre o espetáculo.









