Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, mas ninguém lembra de A Queda do Morcego


Li diversas resenhas sobre Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge antes de o ver. Opiniões divididas, alguma mistura com o massacre do Colorado, mas saldo amplamente positivo, pelas minhas contas.

Só o que não li ainda foi a lembrança de que toda a base da história foi retirada de uma série em quadrinhos chamada aqui no Brasil de A Queda do Morcego. Mas também não li tudo. Por favor, fique a vontade para apontar por qualquer meio de comunicação deste blog um link para alguém que já tenha feito essa conexão bastante óbvia para quem leu o gibi e viu o filme. Sendo este um texto pioneiro ou não, acho importante fazer essa ligação (rima involuntária, mas bacana).

A Queda do Morcego foi publicada no Brasil em 1994 dentro da revista Liga da Justiça & Batman. A Abril, que publicava Marvel e DC Comics na época, misturou de um lado uma fase pavorosa do grupo de heróis, que penava sem o humor de Keith Griffen e J. M. DeMatteis/Kevin Maguire – no entendimento da dupla, um bando de seres superpoderosos e fantasiados jamais se daria bem junto, o que faz um bocado de sentido. Do outro lado da revista estava a melhor fase do Batman em suas histórias mensais (ou seja, sem contar A Piada Mortal, O Cavaleiro das Trevas, A Morte de Robin e todas aquelas novelas gráficas que qualquer leitor meio informado de quadrinhos sabe que são clássicas).

Essa revista é do tempo em que uma criança ou adolescente era motivo de piada por ler quadrinhos de super-heróis. Hoje, todo mundo lota as salas de cinema em paz. Os nerds com um gostinho de “foda-se, corja ignorante que não entendeu as referências à história original”, claro. Mas não saia por aí esfregando as revistas na cara de todo mundo. O desenho dessa época ficou datado, com arte-final pobre (parece que a paleta de cores era a de um monitor VGA) e personagens ultrabombados. Tipo o Bane.

A Queda do Morcego foi lenta. Lembro que no primeiro ou no segundo número de LJ&B a história terminava com Batman dizendo “eu falhei”. Um troço pesadíssimo para um personagem cheio de neuras. Os sinais de cansaço iam ficando cada vez mais claros ao longo das histórias.

Depois teve uma fuga em massa do Asilo Arkham, onde estão presos todos os inimigos do Batman. Assim como no filme – e sim, começamos com os SPOILERS – Bane gera pânico na cidade e derrota o morcego. Dá uma sensação de “putz, não tem como reverter isso”. Uma vingança servida a frio, com o vilão curtindo torturar Batman aos poucos.

Em um filme não dá para ser assim. Foi inteligente a opção do diretor Christopher Nolan em enfocar mais o caos urbano, embora a história fique com cara de V de Vingança em alguns momentos – ainda mais com a desnecessária mistura política colocada no discurso de Bane. A regra das continuações de Hollywood foram seguidas ao deixar tudo mais grandiloquente, perdendo muito da carga de terror que o anterior tinha. Ok, não há um Curinga/Heath Ledger para dar uma enlouquecida na trama. Só ficou a parte cerebral, lembrando as movimentações e estratégias de Código de Conduta. É bacana, mas num filme já escuro, quase sem humor, fica tudo cerebral demais. Mas as tomadas de ação compensam. Em suma, um filme tenso do começo ao fim.

R$ 1,80 o gibi... bons tempos

Felizmente, o diretor resolveu encerrar a história. Pode-se discutir se foi convincente ou não a “surpresa” do final, mas há um ponto final. A Queda cometeu o erro tradicional dos quadrinhos americanos de alongar demais uma série razoavelmente boa. Se parasse na derrota do Batman, seria respeitável. Mas, para quem não leu e nem pretende, depois de ser derrotado, Bruce Wayne fica paraplégico e monta uma forca tarefa de super-heróis.

Azrael, um personagem secundário do bat-universo, vira um Batman high-tech e dá uma coça no Bane. No final Wayne se cura, volta a ser Batman e derrota Azrael. Um rocambole meio Saga do Clone, do Homem-Aranha.

Isso é o que se ganha por uma série de olho mais no comercial do que na qualidade. Depois da DC ter o êxito que teve com A Morte do Super-Homem, era hora do Batman também ser espancado por um brutamontes. Assim como Apocalipse, que “matou” o Superman, Bane não tem o teatrão dos inimigos tradicionais do Batman (Zsasz também não tem, diga-se). Ele só quer quebrar o morcegão. E consegue.

Depois a DC capitalizou. Lançou um monte de histórias que mutilavam Gotham – Terremoto e Epidemia são as que me recordo, uma pior que a outra. Bane virou um vilão comum. A gota d’água comercial foi aquela aparição no filme Batman & Robin, para mim o pior dos sete longas com o herói.

Clooney, como você pode aceitar um filme desses?

Torço que Nolan também saiba parar.

CONTEÚDO DE:
arte

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