Os vídeos celebrando o bar mitsvá do Nissim Ourfali foram todos ou quase todos retirados do YouTube. Não sei se a pedido da família por uma questão de superexposição ou o quê. Lembro que, passando o olho rapidamente pelos comentários do vídeo, havia um nesse nível: ONDE ESTÁ HITLER? Provavelmente não era um antissemita nem nada, foi só uma brincadeira. Mas a família quis se preservar. Impressionante como apagaram tudo tão rápido – acordei neste domingo pra ouvir o superhit do verão e cadê a música? Foi difícil achar – e só no Videolog, plataforma fora dos domínios do YouTube.
Nissim Ourfali, um menino na faixa dos 13 anos (nem sei se ele já fez ou não o seu bar mitsvá, parece que sim), é alguém que todo mundo conhece. Virou meme, evento no Facebook, trending topic no Twitter. Virou a nova Luiza, que está(va) no Canadá. Mais do que isso, Nissim virou uma referência judaica no Brasil.
Para um país que vê os judeus sob uma ótica tão caricata e cheia de desinformação, foi um prato cheio. Nissim é o nosso judeu, produto 100% brasileiro pronto para nos representar pro mundo. Brasileiro não judeu, em geral, vê a comunidade judaica como um corpo fechado de pessoas religiosas que se fecham em suas sinagogas e se dividem, hoje, em três grupos: os ortodoxos barbudos (frequentemente confundidos como “olha um rabino na rua”), o Henry Sobel e, agora, o Nissim. O Nissim surgiu na mídia para mostrar aos brasileiros que, entre os judeus, não há só ortodoxos barbudos. Muitas pessoas não sabiam que um judeu podia usar uma Abercrombie & Fitch, tal qual o nosso prodígio do judaísmo mirim. Nem foi um choque, acho que foi um alívio: ah, existem judeus legais e normais, devem ter pensado.
O problema é justamente Nissim passar a representar os judeus assim. Como alguém que, em aproximadamente 30 frases soltas ao longo de um vídeo de 3 minutos, só fala em religião e em assuntos superficiais e caricatos (como o rabino barbudo, como o sotaque do Henry Sobel). O judeu no Brasil continua sendo visto como religião: termos em hebraico repetidos à exaustão, o Nissim usando o seu tefilim no braço (usado para rezas), a visita dele a Israel, o pai usando uma kipá no playground de seu condomínio de luxo.
Tenho para mim que os judeus, aqueles que acreditam em D’us, estão cada vez mais se portando de maneira caricata e ridícula (a ponto de a família ter tirado o vídeo do ar). Quando não falam de religião, ou quando não fazem menção clara à escola judaica em que estudam ou estudaram, ou quando não deixam claro a congregação da qual fazem parte, eles estão falando de quê? De Abercrombie & Fitch, da praça Vilaboim, do PC, do videogame, da tal baleia. OK, o menino tem treze anos e não estamos exigindo que ele fale ou goste de assuntos mais relevantes como política externa de Israel, o antissemitismo crescente na França ou o Golem que, mais dia menos dia, vai destruir toda a comunidade judaica do mundo.
Mas eu, com treze anos, não era uma marionete religiosa falando só de sefer ha Torá e tefilim, nem minha vida se resumia a videogame, PC e ouvir sertanejo. Com 13 anos, dá pra ter lido um conto ou outro de Kafka, pra ficar no mais básico. Sem contar que já era pra ter lido e relido o diário de Anne Frank umas três vezes pelo menos. São coisas que, diferentemente da religião, ensinam sobre os homens, o mundo em que vivemos, a cultura que nos foi deixada por quem pouco ou nunca entrou em uma sinagoga, mas tinha dentro de si sua origem judaica mais profunda.
Lamento que os judeus, ou grande parte deles, ou pelo menos a parte pela qual a judiaria fica conhecida, estejam se comportando como verdadeiros evangélicos. Pais pagando um vídeo caríssimo, com uma produção vergonhosa, com um bonequinho de porcelana cheio de ingenuidade se apresentando como uma figura rasa que vai a Nova York, não para conhecer os museus da cidade, mas pra fazer compras na tal Abercrombie.
Não prego aqui a alta cultura, o elitismo. Mas difícil não lamentar como um povo que pode ser identificado por figuras como Susan Sontag ou Roman Polanski fica nesse raso, graças a uma mentalidade que mais parece uma pregação evangélica ou uma estupidificação coletiva de um povo que parece estar deixando de lado um de seus elementos mais primordiais: não se constranger em público.














Você faz parecer que falar sobre religião é algo fútil. Preservar a religião pela qual seus avós morreram náo é nada fútil. Falar sobre religião tem um peso tão importante quanto ler kafka ou anne frank. Pouqissimas sào as crianças de 13 anos no Brasil que possuem essa cultura e sabem que a vida tem um objetivo maior do que o material.
Além disso, toda criança gosta de jogar videogame, ir à praia e sair com os amigos, seja na praça vilaboim ou em qualquer outro lugar. Nenhuma criança que faz um vídeo para os amigos falaria sobre cultura. O menino simplesmente falou sobre o que gosta de fazer e não há nada de errado nisso. Qualquer criança falaria sobre os mesmos assuntos.
Ao contrário do que você pensa, esta criança mostra justamente o que é tão bonito na religião judaica. Diferentemente da maioria das crianças de nossa geração, este menino mostra que possui valores, uma família bem estruturada que deseja o melhor para ele, é esforçado, estudioso e se orgulha disso. Além disso, como qualquer criança saudável, gosta de curtir e viajar.
Enfim, falar sobre videogame e consumir não faz alusão nenhuma ao povo judeu, e sim à nossa geração, pois no mundo capitalista em que vivemos, o consumo move a economia. Se nào fosse assim, os vôos do brasil para os estados unidos não teriam aumentado tanto e a receita anual da abercrombie & fitch, hollister e outras marcas americanas não seria proveniente em grande parte do consumo dos brasileiros.
Hoje, a diferença entre as crianças judias e as que não seguem nenhuma religião é que as judias, além de falar sobre videogame, abercrombie e etc, falam sobre a religião e sabem que temos um objetivo maior a ser cumprido nesta vida.
Achei suas ponderações muito pertinentes, no entanto faço as seguintes objeções:
1) Não tenho religião, e não sou afeito a qualquer fanatismo religioso. Acho que ninguém é melhor ou pior por ser católico, judeu, muçulmano, budista, umbandista etc etc etc. Mesmo em relação ao povo, judeu e palestino. Mas qualquer pessoa tem o direito de ser fanático, de sentir orgulho de sua religião e de seu povo; e o problema vai ser dela, exclusivamente. Se o pai do Nissim usa a Kipá no dia a dia, ninguém tem nada a ver com isso, não ofende qualquer um. Ele não tem que deixar de usar para evitar que os judeus sejam visto como "diferentes". O mesmo digo sobre Tefilin.
2) O vídeo, em que pese tenha tido o acidente de se espalhar, foi feito para o Bar Mitzvah, então o ostensivo uso de motivos judaicos está mais que justificada.
3) Você escreve Deus como D'us. É uma particularidade do judaísmo. Se você crítica o pai do Nissim por usar Kipá no cotiano, porque seria uma espécie de mostrar desnecessariamente sua origem (fui isso que pude entender), não seria o mesmo que escrever "D'us"? E, para falar a verdade, tenho no meu íntimo que é uma bobagem usar Kipá na rua, não comer porco, e escrever D'us, mas jamais criticarei alguém por fazê-lo.
4) O vídeo ficaria muito sem graça, no mínimo, se falasse que ele já leu 20 vezes O Processo e Metamorfose, ou 14 vezes o Diário de Anne Frank… hehehee.
Concordo com todos vocês, mas queria reiterar que o único ponto deste post é lamentar como infelizmente os judeus são vistos de maneira caricata no Brasil e vídeos como esse confirmam e acentuam essa visão. Desdobrei o assunto em minha decepção de como a comunidade judaica está se prendendo somente à religião para manter essa identidade, mas todos girando em torno da mesma temática.
Acho que o Nissim deve ser um menino legal e muito inteligente e acabou sendo vítima da internet e da superexposição não consentida. A família, responsável por ele (apesar de ele já ter completado sua maioridade judaica), tem razão em se preocupar com os riscos disso. O que acho, no entanto, é que não dá pra ser mais ingênuo em 2012. Um vídeo com tamanho potencial de meme como esse poderia gerar um desconfiômetro de alguém da família (ou da produtora) antes de sua exibição pública.
São opiniões a serem avaliadas, seja a de quem defende que é preciso ter religião ou a de que todo mundo postar o que quiser e não precisa ser alvo de piadas ou críticas. Inclusive a de que jovens ou crianças estão afetados por essa pouca cultura que há no Brasil e suas vidas se resumem a isso mesmo: Abercrombie, PC, sertanejo e religião. Claro que o vídeo tinha uma proposta específica, que era a de marcar um rito religioso. E fez tudo certinho, ficou simpático, ficou legal. Só pensei automaticamente na resposta e reação ao vídeo (que todos os judeus sabem que não foi boa): inspira as pessoas ainda mais a manter os judeus em suas caricaturas fechadas, religiosas, com pouco a dizer ou importar pro resto da sociedade.
Realmente, não acho que seria esperado que qualquer menino de 13 anos tivesse mais interesse em Kafka do que em um PS3 – não que não seria excelente se isto acontecesse, mas, no mínimo incomum, seria.
Agora, gostaria de ressaltar que no artigo acima, pouco foi considerada a diferença cultural, histórica e social entre um período em que os judeus representavam uma classe intelectual de elite, na Europa, e outro, o da atualidade no Brasil. Sinceramente, mesmo sendo judia e me orgulhando profundamente de tantos mestres visionários que tinham a mesma religião que a minha, QUE BOM que hoje em dia os judeus não têm esta mesma identidade. Até pq estudos comprovam que os grandes mestres, as pessoas mais visionárias, o são em grande parte por questionar e se incomodar com uma realidade de imenso mal-estar, incômodo, exclusão social. Aqueles que mais sofrem são os que mais produzem, numa tentativa de elaborar e encontrar sentido em seu mal-estar. Os resultados são interessantes e contribuem imensamente para a cultura mundial, mas… Acredito que, do ponto de vista psíquico, Kafka, Freud, Einsten e tantos outros foram motivados a criar a partir de uma sensação de incompreensível exclusão e mal-estar (sem tirar o mérito de uma tradição de estudos e inovação, claro).
Vale pensar…
Credo pessoa, dá um tempo.
É um vídeo que o menino fez para o bar mitzvah dele, tu queria o que? "Eu sou ôôu o Nissim Ourfali e reliii três vezes O Diário de Anne Frank ôô-u, e gosto de Kafka!!!"? Imagina que m*rda ia ser esse bar mitzvah.
Só um ser sem senso de humor pra assistir esse vídeo e chegar a uma conclusão dessas.
Acho isso uma m*rda, a pessoa vê um vídeo de APENAS 30 frases soltas e de um pouco mais de 3 minutos e acha que a vida da criatura se resume apenas aquilo.
Se eu coloquei na internet que, sei lá, não acho que se deva dar dinheiro a pedintes, por motivos x ou y, vai vir um trilhão de gente dizer que eu sou mesquinha, que não faço nada pela sociedade. Como se isso me definisse e sem saber absolutamente nada da minha pessoa. E se eu ajudo uma comunidade carente em outro lugar?
Agora UM MENINO judeu vai ali e faz um vídeo que ninguém SEQUER deveria ter assistido, e cai sem querer na internet e pronto, não só ELE é uma pessoa rasa e fútil, como todos os judeus e, porque não, os jovens, da atualidade? Por favor, né.
Voto que paremos de super analisar qualquer coisa que aparece por aí, como se isso fosse uma verdade absoluta sobre o assunto.
Pingback: O melhor e o pior de 2012 [lista definitiva] | Trilhos Urbanos