Tenho visto muitas pessoas reclamando de São Paulo. Não é algo novo nem passageiro ou pontual. Cidades grandes não respondem aos anseios de todos os seus moradores e são complexas o bastante para que haja uma sensação de que nada funciona ou funciona errado.
Novidade para mim é o que chamo de efeito da kassabização. Polariza-se a discussão em um prefeito exótico que vive a inventar novas restrições e proibições. Acho que a cidade tem os seus problemas que nada têm a ver com o Kassab. Todo mundo sabe que São Paulo não foi urbanizada corretamente e que recebeu em pouco tempo um número enorme de migrantes e imigrantes, gerando um labirinto minúsculo de pessoas se batendo umas com as outras. São Paulo não se preparou corretamente pra receber tanta gente. Mas reclamar de São Paulo hoje, independentemente da história de seus problemas, virou reclamar de Kassab.
Tem uma amiga que chegou por aqui recentemente, há um ano. E ela vive xingando o Kassab sem saber (ou sem se dar conta de) que muitos daqueles problemas são anteriores à atual gestão. E talvez sejam problemas eternos, como os ratos de Nova York ou a falta de espaço para morar em Tóquio. Se o nosso prefeito está criando proibições bizarras que não fazem sentido algum à cidade, sinceramente acho que isto é o de menos. Convivam, por exemplo, com um Michael Bloomberg que está proibindo os cidadãos de Nova York de tomar refrigerante ou de fumar dentro de suas próprias casas. Pra mim, proibir a feira da praça Roosevelt é fichinha. Aliás, opinião pela qual espero não ser apedrejado na rua, deveriam era proibir a Praça Roosevelt de existir. Anote a dica, Kassab: “por uma cidade com menos teatro”.
Recém-chegados a São Paulo têm essa relação de amor um pouco recalcada com a cidade. Evitam falar bem dela para não parecer empolgados demais ou jecas que a idolatram. E esse recalque gera uma reação oposta: “vou falar mal para me integrar”. É um sentimento de orgulho e um pouco de soberba às avessas. Olha como sou bonzão, moro em São Paulo e falo mal dela. E nesse processo, quem roda e cai do cavalo branco é o Kassab que termina por dar munição a quem já chega armado.
Passei dois dias no Rio de Janeiro nesta semana. Fui a trabalho, mas tive um certo tempo (mais exatamente, uma noite e umas três horinhas do segundo dia) para andar bastante por lá. Eu, que também reclamo de São Paulo (mas nem tanto do Kassab), senti falta daqui. Apesar da beleza do Rio, me faz falta o chorume do centro, o meu bairro tomado por noias, o metrô lotado.
É bom saber que você vive em uma cidade onde, na agência bancária, o áudio do sistema de segurança não tem sotaque carioca (“porrrrrta detectou objeto de metal”), onde os cinemas evitam passar E aí, Comeu? com o Bruno Mazzeo (dei uma olhada no guia do Rio e quase 90% das salas estão com esse filme), onde as pessoas não usam a camiseta Made in Gávea. Por fim, em uma cidade onde eu não corro o risco de encontrar o Bruno de Luca rolando a sua pança na areia da praia enquanto grita “iraaaado”.














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