Os espaços para nada

E se você acordasse em uma segunda-feira, chegasse ao seu suposto trabalho assalariado e sua tarefa do dia fosse fazer NADA?

O que você faria? Conseguiria fazer nada? Costuma fazer nada normalmente no seu trabalho?

Bem, é mais ou menos a tarefa de um arquiteto quando tem que fazer uma praça.
Pode parecer, mas não é uma tarefa fácil. Em São Paulo, a tarefa é hercúlea. Como uma vez um amigo me disse. “São Paulo tem medo de vazio”. Constatei que São Paulo sofre de agorafobia, o medo do vazio. É muito difícil fazer com que um espaço tenha bons motivos para permanecer vazio por aqui. Sem nada. Aberto e livre.

E tem espaço sem nada bom e do tipo ruim. Sala de espera! Praticamente todas são terriveis. E elas ficam piores pois todo mundo pensa que a unica coisa possível de se fazer enquanto esperamos é ver tv ou ler revista.

Por outro lado, qualquer varanda é muito atraente mesmo que não tiver nenhuma rede nela pra deitar. E a praia então, que é só areia e água, um deserto seco e outro molhado.

É, mas São Paulo não tem praia. Tem o Minhocão. E tem a Praça Roosevelt.

Quero falar desse lugar de São Paulo em resposta ao meu colega de blog Thiago Blumenthal, que disse na semana passada que ela deveria deixar de existir. Panfletou com precisão de quem sabe o ponto fraco (ou o forte) do inimigo: “por uma cidade com menos teatro”.

Ainda estou mais confuso do que indignado com a sugestão e como ele previa, vai ter pedra. Ao menos ela é virtual.

É desconcertante como o minhocão é mais eficiente do que a própria praça em satisfazer o desejo por espaços livres na cidade. São partes de uma mesma obra, a conclusão da ligação leste-oeste, que começou com o Prefeito Faria Lima no fim dos anos 60 e terminou com o Maluf em 70. Tenho a impressão de que o renomado arquiteto paisagista Roberto Coelho Cardoso (o nosso Roberto de São Paulo, porque Burle Marx era do Rio) não soube fazer (o) nada. É como eu disse, não é fácil mesmo. Talvez impossível neste caso. O governo exigia um número mínimo de vagas de estacionamento. A área original da praça era de 25 mil metros quadrados. Só o estacionamento ocuparia 19 mil metros quadrados e a via expressa sobre a praça mais 17 mil. Para um lugar que chegou a ser um dos maiores vazios da cidade, a praça já estava ficando cheia demais. Acabou sendo mais um edifício do que uma praça. Quem se reuniu em cima do pentágono de concreto, talvez não tenha visto os passantes que cruzavam pelo nível da rua. Quem passava na rua, mal poderia perceber se tinha alguém em cima do pentágono. Prejudicou desta forma um dos princípios mais essenciais para uma mobilização publica. O encontro casual.

Junto com a construção desse titã de concreto, o governo também transferiu a USP e seus estudantes que provavelmente bebiam nos bares da região para o Butantã depois da batalha da Rua Maria Antônia, implantou censores na redações dos jornais, inclusive na redação do Estadão – na Major Quedinho naquela época – e alguns grupos que apoiavam o regime decidiram ajudar na dispersão ateando fogo e invadindo teatros na região central.

Construir a cidade, não envolve apenas implantar edifícios ou instalar infraestruturas. Cada ação de controle social por parte da prefeitura interfere no aspecto humano dos espaços da cidade. A gestão do prefeito Kassab tem preferido soluções legalistas, restritiva e policiais para resolver problemas de infraestrutura, saúde pública e distribuição de serviços básicos. Por isso, concordo com as criticas feitas a sua gestão, até mesmo dos moradores mais recentes e das mazelas mais antigas de seus antecessores. Um prefeito que não soluciona problemas antigos os toma para si. É um dilema politico solucionar alguns em detrimento de outros e um prefeito deveria ser lembrado tanto pelos que resolveu quanto pelos que não resolveu.

Quarenta anos depois, a prefeitura decidiu encarar este problema, mas não me parece que eles tem ideia do que estão fazendo. Por muito tempo a praça abrigou os porões imundos da liberdade simplesmente pelo fato de que muita gente havia se esquecido dela. Desta vez colocaram algumas coisas, tiraram muito do que era preciso tirar. Mas tiraram gente de lá também. E estão tirando cada vez mais, agora com o fim da feira.

O projeto novo não me parece bom. Não são os pergolados ordinários que vão marcar nossas vidas. Eles me lembram os coretos das praças antigas. Estão lá , mas quase ninguém sabe como usá-los mais. Ao menos os coretos me pareciam mais sensuais.

Como é difícil fazer nada.

Continua…

CONTEÚDO DE:
cidade

Comentar Pelo Facebook

Uma resposta a Os espaços para nada

  1. Pingback: Depenando a pça. Roosevelt | Trilhos Urbanos

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>