O lado de cá do jornalismo

Há todo um universo que caminha além, de mãos soltas, nas caixas de comentários de portais, sites, blogs. É onde o microfone é aberto em praça pública para que cada um de nós comente a vitória do Corinthians sobre o Flamengo, o último capítulo da novela Avenida Brasil, a crise na Síria e a sua crítica ao filme que estreou nesta semana.

Uns quinze anos atrás, em tempos de internet 1.0 carregada a modem barulhento e layouts em construção, a situação era diferente. Os debates, a repercussão, a opinião era restrita ao espaço dos fóruns, onde criavam-se regras específicas delimitando tema e algumas etiquetas para que aquilo não virasse uma zona explosiva, sem ordem e sem função. Funcionava. Hoje os sites criaram seus sistemas próprios que organizam a discussão de determinada notícia aos leitores. E o Facebook, grande monstro que sai sugando tudo o que vê pela frente, anda substituindo a caixa de comentários. O Estadão, a Folha ou qualquer outro jornal posta a notícia, a coluna, a foto do dia, em sua fanpage, e não demora muito a aparecer um, dois, centenas de comments, com like ou sem like.

Hoje muitos blogs com algum destaque e alguma relevância em termos de audiência têm também suas fanpages no Facebook e, assim que postam algo novo, retransmitem o post na rede social e dali surge o debate: gente que concorda com a escalação do Mano Menezes, que gostou do look novo que você postou ontem, que acha que o Luan Santana é de fato mais importante que o Machado de Assis. A caixa de comentários nos próprios sites/blogs continua existindo, mas vem perdendo força. É mais fácil comentar direto no Facebook, não leva mais do que alguns segundos e dois cliques e evita qualquer burocracia, pequena que seja, de preencher um miniformulário com nome, email e só então o comentário. Não vou discutir aqui se comentar no Facebook é melhor do que no site direto, não é esse o ponto da discussão.

O que reitero nesse mundo de comentários é que criou-se uma terceira margem do rio na veiculação e propagação de ideias. O que antes era uma via de mão dupla, em que a notícia era produzida e o seu conteúdo era debatido, criticado ou festejado (seja pelas cartinhas que os jornais recebiam diariamente ou pelos fóruns), hoje a notícia passa a se desfragmentar em cacos. Subverte-se e, em última análise, é recriada com os tons e com as cores de determinada bandeira. Vamos a um exemplo simples, de um infográfico divulgado nesta quinta (19) pelo Estadão no Facebook.

Baixaria? Talvez. Mas a partir de uma notícia com conteúdo X, passou a ser debatido um conteúdo Y, que, independentemente da força dos argumentos usados e dos eventuais erros de português, em nada esclarece ou reforça a discussão de algo importante que aquele conteúdo original poderia gerar. É o que eu chamo de lado de cá do jornalismo, algo que se tornou possível e real (e forte) com a internet – uma margem invisível que não segue o fluxo do rio.

Evidente que tem alguém nos sites que faz uma moderação do que é comentado, mas acho muito difícil controlar a velocidade com que os comentários são digitados e postados. Isso sem contar o que vai ser filtrado ou não, o que é de bom tom ou não etc; há certas sutilezas. Não deve ser fácil moderar, apesar de ser divertido. Só que é impossível. Nessa postagem do Estadão com o infográfico, por exemplo, em meia hora já surgiram mais de cinquenta comentários. No próprio site, o controle é um pouco mais apertado, mas acontece o mesmo processo de rodopio do conteúdo. Espera-se criar um debate de como o horário da manhã na TV está cada vez mais consolidado com a Record e acaba-se caindo em um diálogo interminável sobre os melhores episódios do Pica-Pau.

Não consigo conceber esse processo como ruim. Acho importante abrir esse espaço aos leitores que, nas proporções sem fim da internet, querem mostrar o seu rosto, querem valer suas opiniões e, mais do que isso, querem formar suas opiniões dentre os seus amigos e criar novos e infinitos debates. Se acontecer um “chorume”, como dizem, é preciso entender que ele já faz parte do novo jornalismo a partir do momento em que determinado release é reproduzido em forma de crítica. Aceitar que os leitores, a internet em forma humana, contribuam também com sua dose de desinformação é algo no mínimo honesto.

CONTEÚDO DE:
cidade

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