
Costumamos chamar de evento as ocasiões em que muita gente se reúne para desfrutar de algum acontecimento oferecido por outras pessoas. Dá para fazer uma lista longa de maneiras e lugares em que eles podem acontecer entre o sofá de sua casa e um estádio de futebol. Dentre tantos, existe um do qual tenho a impressão que seja o mais peculiar. Mais do que qualquer outro e, por isso, um dos mais interessantes para perceber que a cidade acontece de uma forma muito mais complexa do que podemos perceber.
Um desfile do São Paulo Fashion Week tem uma duração aproximada de dez minutos. Foram trinta e dois deles na última temporada que aconteceu em junho na capital paulista. São aproximadamente cinco horas de desfiles distribuídos ao longo de uma semana, ou melhor, ao longo de vinte e quatro meses até a próxima temporada de moda.
Pensar em duração não faz sentido. A semana de moda é – ao mesmo tempo – instantânea e persistente. Com sorte pode se eternizar. Entre um desfile e outro, milhares de pessoas circulam pelas rampas do Pavilhão da Bienal de São Paulo e distribuem conteúdo por uma infinidade de canais de comunicação por todo o mundo.
Com isso em mente, podemos perceber duas formas de observar o desfile. A primeira diz respeito aos espectadores que estão sentados na plateia observando peças de roupas em modelos de perfil andando de um lado para o outro. Mas é do segundo ponto de vista que o mundo observa. Na ponta da passarela, de frente para os modelos, fica o Pit, o lugar onde todos os fotógrafos ficam. O lugar de onde um afinadíssimo equipamento de iluminação dispara um segundo sol sobre os corpos vestidos das modelos para então um batalhão de fotógrafos tentar capturá-lo de volta com suas máquinas fotográficas. Cada raio de luz vai gerar uma imagem que irá se espalhar, a partir daquele momento, para o mundo inteiro e o futuro.
Entre um ponto e outro do olhar, a modelo na ponta da passarela realiza a tão sutil “viradinha” em que, com um gesto rápido e cubista, deve ser todas as suas dimensões de uma vez.
Assistir a um desfile pode ser um grande motivo de descontentamento para uma pessoa que o presencia. Não ter ideia de como tudo aquilo se propaga ou significa pode dar uma impressão de que não existe um bom motivo para estar lá. E isso até faz sentido.
Seria como ir assistir a gravação de um filme em que o ator olha para câmera e não para você.
Só que não existem atores. A modelo olha para nada num esforço de não existir. Como num teatro, não há cortes e cada ponto de vista é uma possibilidade. Tudo se resume a uma cena e uma protagonista: A roupa.
Este espetáculo está longe de ser um monólogo. Não é só de tecido, agulha e linha que é feita a moda. Sem dúvida, cada peça de roupa interpreta toda uma cadeia de produção criativa, da matéria prima às importações, do atacado ao varejo. Representa o papel protagonista da mercadoria no mundo. Por outro lado, o restante do elenco tem papeis indiretos, mais do que secundários. Corpos esculpidos, rostos impecáveis, cabelos irretocáveis, passarelas reluzentes e a música representam formas ideais para nossos corpos, nossos ambientes, nossa forma de encarar nossos bolsos e nossa forma de pensar e desejar.
A moda ao longo do século passado chegou ao papel de maestrina do consumo e dos desejos dos consumidores. Ela reconstrói a identidade de grupos sociais e culturais a cada estação, mais do que nos libertar os desejos e criatividade, nos dá trinta e duas boas opções.
O SPFW representa a mais alta esfera social deste fenômeno na América Latina e podemos supor que estes costumes e tendências influenciam a população de cima para baixo. Mas no fundo, sabemos que este caminho não é tão linear. O Mercado Mundo Mix, que surgiu também nos anos 90, é um exemplo de como os ventos não sopram apenas de uma direção.
O que eu verdadeiramente gostaria de dizer com tudo isso é que as formas de eventos como transmissores de informação e da cultura, principalmente no que diz respeito às mercadorias, assumem formas muito eficientes e inovadoras. Seu objetivo em geral é a manutenção de seus próprios padrões e interesses. No contraponto, estão outras formas tradicionais de cultura, ou mesmo expressões populares de costumes e a própria realidade concreta que é toda essa mistura de pessoas e pensamentos aqui e agora que também nos inspira.
O importante aqui não é seguir ou se opor a alguma tendência excêntrica da ultima edição. O que vale é perceber como funciona toda essa transmissão de ideia. Como ela poderia ser utilizada para exprimir outros valores. Perceber que até mesmo quem ficou os dez minutos de todo um desfile apenas tem um papel nesse mutirão de espalhar informação, pois afinal, o que você acabou de ler é resultado disso.













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