Os artistas fazem perguntas, se fazem perguntas. Algumas delas parecem até sem sentido, outras quase infantis. Perguntas que algumas pessoas não se detem para refletir, por conta de outras ocupações. Em que nos ocupamos? O tempo que investimos em nossas atividades, quantas vezes sentimos que é um tempo bem investido, ganhado?
A relação que os artistas têm com o mundo é um dos eixos que intermedeiam a expressão do artista e com o outro. E nesse espaço sem tempo, nesse espaço do lirismo subjetivo do artista, tudo acontece em um tempo que não é o tempo que a cultura e a sociedade estabelecem para as coisas sociais.
Uma das perguntas que alguém das artes se faria seria, por exemplo: É errado que para pensar “artisticamente” o mundo precise de um tempo diferente? Já que estão se tratando de objetos de natureza diferente a dos que costumam trabalhar alguém das ciências exatas, os tempos e a velocidade com que se vive são aqueles adequados à natureza humana, organicamente falando?
É muito fácil, para quem acredita em alguns discursos de produtividade capitalista, ter algum vestígio de preconceitos com os tempos e com as perguntas que os artistas se fazem. Mas é da natureza artística tentar compreender a vida, o homem, perguntar reperguntar, ser incisivo, tirar os véus de alguns “costumes” que tendem a naturalizar-se, porque ninguém se questiona nada ou porque não há nem tempo nem lugar para se questionar algumas coisas.
É ai que a arte entra em cena, distanciada para detectar aquilo que quem está inserido não consegue ver, e envolvida para evidenciar isso, e pelo menos problematizar as relações entre os homens, a relação do homem com o mundo e com seu fazer. A arte apresenta os conflitos da vida com um olhar poético e reflexivo.
“A arte existe porque a vida não basta”, diz o poeta brasileiro Ferreira Gullar. Não basta no sentido mais instintivo que o homem possa ter. O homem precisa desses referenciais criativos e artísticos para se reconhecer, para evoluir desse homem que foi, mas que sempre tem o livre arbítrio para mudar as vezes que for preciso. Há também uma tendência da busca do belo, na natureza em primeiro lugar, e em todos os objetos interacionais do homem com o mundo, incluindo as produções artísticas. E mesmo sabendo que as categorias estéticas nunca estão “puras”, ou seja, sempre existem em harmônica combinação para que seja suportável sua contemplação, como no caso da dupla belo-feio.
Isso de distinguir e encontrar beleza e feiura acontece, por exemplo, nas pinturas rupestres do homem primitivo, que originalmente não foram produzidas para ser contempladas. Em São Paulo, por exemplo, uma metrópole repleta de informações sensoriais e todas acontecendo ao mesmo tempo, para encontrar o belo, nessa imensidão que configura o feio, é preciso fazer um recorte desse mundo. E esse recorte é, em primeiro lugar, um espaço criativo e, no segundo, poderá até ser artístico.
Nesse sentido a artista plástica de Fayga Ostrower diz o seguinte:
“Um ato tão corriqueiro como atravessar a rua – é impregnado de formas. De inúmeros estímulos que recebemos a cada instante, relacionamos alguns e os percebemos em relacionamentos que se tornam ordenações… Desde o homem pré-histórico a busca de significados se dá em termos de ordenações. O homem procura ordenar para buscar significados. Quando estas relações/ordenações alcançam um sentido, aí é que tem a beleza; que é a sua própria verdade. A beleza não é o bonitinho, é esta verdade mais profunda, essa harmonia, essa justeza interior, que a gente descobre, por ex, nas ordenações da natureza”.
A criação é um ato ordinário, comum a todos os homens, mas na atividade acadêmica artística se quer trazer uma expressão diferencial do mundo que transcorre. A da minha sensibilidade, daquilo que eu trago de sensível para traduzi-lo em objeto-arte. Falar de uma obra de arte, falar de como essa expressão artística se configura é falar sobre toda a história humana, que é transformadora do próprio ser humano.
Assistindo algumas peças de teatro não posso deixar de me fazer algumas perguntas por simples curiosidade, e que vão além do ato criativo ordinário do homem comum. São perguntas que todo trabalhador artístico, no seu fazer, e por princípios de responsabilidade ética, deveria se perguntar. Para quem se faz teatro? Quem é o publico alvo? O que se quer dizer? Se quer dizer alguma coisa ou simplesmente se quer levantar uma pergunta a ser respondida pelo público? Quem é esse espectador que se interessa nos espetáculos teatrais?
Uma experiência que me deixou perplexo foi no espetáculo “Vermelho” atualmente em cartaz, no Teatro GEO (r. Coropés, 88, Pinheiros), em São Paulo. A peça interpretada por Antonio Fagundes com o filho Bruno conta, ficcionalmente, alguns momentos da vida do artista plástico russo radicado em Nova York Mark Rothko (1903-1970).
Um dos momentos de ápice de tensão é quando o personagem do pintor arremete com um discurso veemente contra a classe burguesa que não sabe apreciar as suas obras e as catalogam por se combinam ou não com a decoração da sala e que adjetivam seus quadros como “bonitinhos”, “bacanas”, “legais”. Finalizando a apresentação, com muita generosidade, os atores se prestam a um bate-papo com o publico para intercambiar opiniões. O dia que eu fui, uma das devoluções da plateia foi a de uma mulher que disse: “Eu achei uma imagem muito bonita quando pintam o quadro juntos…”. Silêncio. Perguntas e mais perguntas.
A vida não é suficiente. Temos a arte. E a arte a quem tem?
Na quinta e na sexta-feira (dias 12 e 13) da semana que passou, os aprendizes que integram o Projeto SP com Arte, da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, protagonizaram intervenções urbanas. Aconteceram nos vagões dos trens e metrôs da cidade, coordenadas pelo ator Roberto Audio, do Teatro da Vertigem.
Os membros da intervenção entravam em um vagão vestindo roupas de cama e no transcurso da viagem iam “despertando”. Ou seja, fazendo as coisas que a gente faz quando acorda e se prepara para um novo dia. A proposta de alguma maneira dialoga com essa coisa do espaço onírico, lírico do sem tempo tão necessário para o exercício do pensamento sem interferências.
Nessa intervenção foram vistos seres afetados pela pressa, pela correria, por esse espaço do impessoal ao ponto de perder a intimidade no tempo de fazer a barba, escovar os dentes, se maquiar. Tudo na frente dos passageiros, plateia e cúmplices. As ações dessa intervenção me levam a refletir qual o valor do tempo? Qual o valor do espaço? Qual o respeito pela privacidade? A arte terá cumprido alguma função em levantar ao menos um questionamento nos passageiros do metrô?








