Desde as primeiras manifestações do teatro, no homem primitivo, já se tinha uma ideia de função social. Partindo das pinturas rupestres e por meio das representações ritualísticas – primeiros indícios de teatro – se ensinava às novas gerações a arte da caça, entre outras coisas. Esse sistema de ensino permitiu a transição de conhecimento de uma forma surpreendentemente pedagógica e funcional para a evolução do conhecimento do homem.
“O bom ator é um homem bom”, diz em um de seus livros Konstantín Serguéievich Stanislavski, (1863-1938), ator, diretor e autor russo criador de uma das técnicas de interpretação atoral mais revolucionárias do seu momento. Muitas más interpretações foram feitas a respeito dessa afirmação, ainda hoje quem trabalha nas artes do teatro reflete muito sobre isso.
Não creio que se trate de uma lei que diz que os atores são melhores pessoas que outras, como muitos interpretam. Acho que desde a modernidade começamos a dar-nos conta da relação intrínseca entre a capacidade do homem e o que acontece quando começa a atuar.
Os atores tem o terrível trabalho de não deixar cicatrizar a alma. Sempre a ferida tem que estar aberta para ser cutucada a cada nova apresentação. As coisas que afetam o ator como homem condicionam sua conduta e seus logros em cena, a um extremo que se percebe imediatamente. Trabalha-se com sentimentos análogos, os propostos na representação, mas sentimentos, afinal das contas. Dessa experimentação de situações análogas descobrem-se coisas da vida que, se não for pelas condições propostas pela representação, dificilmente possam se experimentar na rotina da cotidianidade habitual.
Os gregos, segundo Aristóteles, tinham que trabalhar nas suas tragédias a ideia de catarse para que seu teatro tivesse a função social de sublimar as baixas paixões humanas, purificando-as. Esse processo acontecia pela identificação com o personagem trágico. Na peripécia, enquanto comete a hibris – o erro do herói trágico – o espectador sente horror e compaixão por ele. A partir desse novo conhecimento que se tem, supõe-se uma nova forma de ver as coisas. Imaginando o que se sentiria, no caso de estar no lugar do herói trágico, e por medo de ter o mesmo destino não se atua do mesmo jeito.
Para os gregos, tragédia era um elemento fundamental no processo de educação das paixões, e a catarse tinha funções educativas e de clarificação intelectual.
O teatro ainda está vivo por uma simples razão: temos muito por aprender dos homens ainda, e o exercício do teatro possibilita que isso aconteça num contexto ritualístico catártico. É claro que na cena contemporânea nem toda peça se propõe trabalhar nestes princípios, mas alguma coisa acontece. Mais do que educar uma conduta, a proposta contemporânea tenta estabelecer ao espectador uma pergunta. Pergunta que ele mesmo deverá se contestar a partir do seu conhecimento de mundo.
O 24 de junho passado foi o aniversário de Romina Tejerina. Nesse mesmo dia, ela saiu em liberdade da cadeia. É uma jovem argentina da província de Jujuy. Sua condenação: 14 anos por matar sua filha, produto de um estupro, logo que esta nasceu. Cumpriu dois terços de pena e foi libertada por boa conduta.
Ao ler sobre este caso não pude deixar de associá-lo com a tragédia Medeia, que mata seus próprios filhos como forma de punir seu marido Jasão, após ser traída por ele com Creúsa ou Glauce (depende da tradução). A tragédia acaba com Medeia elevada no carro do deus Helios, que na mitologia é a personificação do sol, com quem tinha planejada sua fuga, voando pelo ar.
Eurípides, o autor desta maravilhosa tragédia, já na sua época implanta um vislumbre do que hoje chamamos talvez de feminismo. E a solução final fantástica de Medeia elevada nesse carro rumo ao sol deixa aberto o veredito do juízo com respeito a se ela é culpada ou inocente pelo crime. Uma atitude mais do que inovadora e transgressora para a sociedade patriarcal grega, que abre um novo capítulo para a mulher da sua época.
Aqui no Brasil também temos o caso de Neyde Maria Lopes, mais conhecida como a “Fera da Penha”, que matou a filha do seu então namorado, Antônio Couto Araújo, depois de descobrir que ele era casado e tinha duas crianças.
No último final de semana, fui ao teatro. Desta vez a proposta era assistir “O Canto de Gregório”, uma das três peças que estão em cartaz na Funarte como parte do ciclo “Nova Cena Nordestina”. No programa dos espetáculos diz: “Como anti- herói existencialista contemporâneo, Gregório é suspeito de ter matado um homem, mas seu julgamento se dá em outros termos. O júri se recusa a dar o veredito sem antes questionar: ele é um homem bom?”.
A participação na peça me levou a um sem fim de questionamentos. Fui tentando me debruçar em alguns deles nestas linhas. Quem mata, é um homem/mulher bom/boa? Fico me perguntando se o teatro ainda não tem alguma função catártica, onde me identifico com o protagonista e ao mesmo tempo sublimo as minhas bondades de matar pelo terror que me causa o trágico final deste anti- herói, Gregório.
Novamente, o teatro contemporâneo nos acerca a uma pergunta paradoxal, que dificilmente possa ser respondida. Mas, que vale a pena refletir, e isso nos leva a vivenciar situações análogas às reais e ampliar nosso repertório de conhecimento que provavelmente nos acercará, de alguma maneira, a que sejamos “pessoas boas”.
O grupo Magiluth, de Recife, batizados como “Os Novos Pernambucanos” da cena teatral paulista estão com esta peça os sábados até 28 de julho, às 21h na Funarte (al. Nothmann, 1.058, Campos Elíseos, SP – Metrô Marechal Deodoro, tel. 0/xx/11 3662- 5177 ou magiluth@gmail.com).










