Barreira da Folha é uma fresta

Tenho um computador desktop, um smartphone, um tablet, um notebook e dois videogames que acessam a internet. Fazendo as contas, poderia ler gratuitamente 240 matérias da Folha de S.Paulo por mês, oito por dia.

É um cálculo conservador. Se somar os aparelhos da Cecilia (aka minha namorada) e os do meu trabalho, chego a leitura de 400 textos fazendo arredondamentos para baixo. Se a Folha usar o critério do New York Times para redes sociais (links acessados por compartilhamentos não contam no limite), acho que é mais do que eu leio atualmente, assinando o jornal. E pagando caro por isso. Talvez seja até mais interessante cancelar e passar a ler o conteúdo nas telas, já que ele vai estar todo aberto.Não quis exibir minhas posses (Sakamoto mandaria me prender). Estou longe de comprar tudo no lançamento, mas inegavelmente gosto de tecnologia e compro alguns apetrechos (eu cubro essa área, pô, me deixa).

Não estou só. É uma tendência as pessoas terem cada vez mais aparelhos diferentes com acesso à internet – nos anos 90 eu tinha apenas um desktopão colossal no tamanho, péssimo no desempenho. Dei-me conta disso há pouco. Por isso não expus essa questão no post anterior (minha ansiedade me impede esperar pela opinião definitiva dos assuntos aqui abordados).

A paywall, a barreira que faz a cobrança pelo acesso da Folha, se ativa por aparelho. Existem 12093173 maneiras de driblar a barreira, mas a popularização de pontos de acesso à internet em casa e no trabalho vai a deixar cada vez mais inócua para qualquer usuário.

Surge daí uma situação entre o dramático e o cômico: a Folha é um dos veículos que mais investem em adaptações para outros sistemas. Ou seja, a barreira é fraca por culpa da própria Folha que se adapta a outro aparelhos, cada um com um IP (o RG na internet de cada máquina).

O jeito de driblar isso seria com um pedido de identificação logo na entrada. Isso é chato, ninguém gosta. Tem uma empresa hoje em dia que é a campeã mundial em oferecer um botãozinho rápido para atalhar o formulário. É a coisa mais comum hoje em dia descobrir um novo site que pede para você preencher um monte de dados ou, como em um passe de mágica, apertar um botãozinho azul para ter acesso sem burocracia. Esse caminho mais rápido se deve ao fato do site ter muitos dados confiáveis colocados – veja só – pelos próprios usuários. Levante o polegar quem souber de quem estou falando.

É um devaneio meu. O Facebook tem um enorme histórico de desrespeito à privacidade dos usuários e fazer o que quer com quem aceita o contrato de uso (quem lê aquilo?). Mais recente exemplo aqui.

A vantagem de usar esse site seria se beneficiar da política agressiva contra fakes e a troca intensa entre amigos, fazendo do jornal mais social. O ambiente também desestimula que as pessoas compartilhem suas senhas, coisa que acontece no caso de um sistema de identificação próprio e focado só em um site de notícia – problema que a Folha vai ter que enfrentar com o site da forma em que está.

Há pouco tempo o Facebook divulgou que iria passar a permitir aplicativos com cobrança de assinatura. Tudo, claro, dentro do ambiente da rede social que não gosta de gente indo embora. É a solução de Mark Zuckerberg para os dilemas do jornalismo: todo mundo comendo na mão da plataforma dele. Mas antes de sair na caça ao escalpo dele, é bom ter em conta que o poder que ele tem em muito se deve aos usuários que passaram a depositar o mais importante de suas vidas online no Facebok – chats privados, aplicativos, sites que dá preguiça de preencher o formulário, fotos, vídeos, etc. O Facebook virou um ambiente controlado não por causa de um Grande Irmão ditatorial, mas sim porque a gente se entregou a um Admirável Mundo Novo, onde os likes são o soma, a droga que nos deixa anestesiados.

A opção mais próxima do Facebook seria vincular com o Google Plus, mas esse site tem muitos perfis falsos e é pouquíssimo usado. A interface horrorosa e confusa do Plus iria só deixar todo mundo perdido em meio àqueles círculos que ninguém consegue explicar direito como funciona.

Em análise fria, o Facebook tem o melhor sistema para o jornalismo da web. O problema é que essa tecnologia está nas mãos de um jovem que não parece ver limite para impor sua visão de mundo.

Provavelmente, a coisa vai ficar como está por um bom tempo – depois desse avanço desgastante de erguer a paywall, a Folha faz bem em baixar a bola, só afinando o sistema. As hipóteses aqui são isso mesmo, hipóteses.

Certo é que se trata de um caso interessantíssimo de se acompanhar. As empresas de jornalismo não se prepararam para essa situação, achando que a panaceia do seu segmento era só fazer notícias. O paywall da Folha é o movimento mais importante de um jornal brasileiro em anos. Renovarei minha assinatura.

CONTEÚDO DE:
cidade, tecnologia

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2 respostas a Barreira da Folha é uma fresta

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