Em uma matéria do New York Times de 14 de junho, leio que hoje esses rompimentos estão passando por uma redefinição. Quando alguém rompe com você, diz a reportagem, temos um processo de luto pior que o da morte, já que a pessoa ainda está lá, viva e presente. Você, se quiser, pode continuar acompanhando o que ela faz pela internet. Com quem ela conversa, quais amigos em comum ainda mantêm algum tipo de relação com ela, que música ela está ouvindo e, em maior proporção, se ela casou, teve filho, se foi morar no Piauí. O ser humano não tem disciplina para um autocontrole do tipo “não vou mais acompanhar a sua vida” e isso o destrói emocionalmente. Até porque a pessoa continua escancarando todos os detalhes da vida dela ali no Facebook, o restaurante que ela foi ontem ou a promoção que ela recebeu em seu trabalho na semana passada. E você ali, em uma situação ambígua de poder e impotência: enquanto pode observar tudo de perto, nada pode fazer. Como o personagem de Janela Indiscreta, do filme de Hitchcock. Estamos presos a uma cadeira de rodas. Esse é o lado repulsivo do universo digital, como diz o texto do jornal americano.
Lembro de um episódio engraçado relatado pelo jornalista Mauricio Stycer em seu blog no UOL. Ele conta que de maneira inocente fez um comentário sobre alguém que usava Crocs em uma agência dos Correios. O que ele não imaginava – e a gente nunca raciocina isso – é que tem muita gente em sua lista de seguidores (e talvez muitos amigos, até pessoais) que usam e gostam de Crocs. E podem se sentir ofendidos com a brincadeira. Não que o mundo deva ser tão nazi assim, tão politicamente correto. Mas a gente nunca fala mal do tênis novo que nosso amigão comprou. Ou nunca fala mal do corte de cabelo novo da nossa colega de trabalho. Só que na internet a gente faz isso sem pensar. A internet nos suga o umbigo até o talo.
Tento, de uns tempos pra cá, não emitir opiniões em público que possam ser ofensivas ou possam chatear pessoas que eu nem imagino (em uma lista de mais de 600 pessoas, como controlar isso?). Não é simples. Até uma postagem mais despretensiosa sobre o quanto eu idolatro e sou obcecado por Nova York, com um vídeo do YouTube com a abertura de Manhattan de Woody Allen, pode soar como um “Thiago pedante”, o que não sou. Sou obcecado por Nova York na mesma medida em que sou obcecado pelo misto quente da padaria que tem perto de casa. Não sou pedante. Mas podem pensar assim. E a internet é um corredor livre e zoneado de impressões arbitrárias e, muitas vezes, injustificadas. A escrita do Facebook é rápida tal qual a leitura de seus amigos. E é letal, sem tempo para maiores reflexões de quem lê ou de quem escreve. Na mira das lentes desse paparazzo virtual, somos flagradas e pintados como o que não somos.
Depois desse episódio com essa amiga, que é muito especial, fiquei ainda mais controlado com isso. Talvez um dia eu chegue ao nirvana absoluto de nunca mais postar nada para não ser interpretado de maneira errada ou para não chatear ninguém que discorda de mim. Reconheço também que ando precisando, já há algum tempo, de uma terapia pesada para controle de ansiedade, raiva, neuroses urbanas. Faz tempo que não vou ao terapeuta por causa de dinheiro, mas acho que está na hora de tirar o dinheiro que separo de restaurantes/videogame/livros para algo que vá fazer bem à minha saúde mental e que vá fazer bem às minhas relações sociais. Não quero mais perder amigos. Não por tão pouco.
Volto para Nova York no mês que vem. Não que a cidade tenha um fim terapêutico, pois só serve pra realçar ainda mais todo o meu descontrole emocional, mas vai servir para uma pausa nesse cotidiano absurdo e completamente apegado a essas relações virtuais que ando vivendo aqui. Espero que vocês continuem sendo, em nome da proposta do Trilhos Urbanos, bons leitores que gostem ainda de mim. Tenho uma necessidade enorme de aceitação.












