#melissafail: uma chantagem

Fachada da Galeria Melissa, em Nova York (todas as fotos do post são de divulgação)

Eu tinha programado o presente post para sair logo depois da matéria O Diabo Investe em Blogs, que escrevi para a IstoÉ Dinheiro.

Só que a repercussão da matéria foi muito forte. Se eu tivesse postado este texto, que fala sobre o caso Melissa Fail, ficaria parecendo oportunismo barato para conseguir audiência.

Escolho de forma aleatórias as roupas que visto e raramente falo de moda. Leitores (com razão) desconfiariam. E justamente credibilidade é o ponto central do post. Sem contar que no dia que o Trilhos começar com neuras de audiência, será hora de fechar esse espaço.

Agora que a poeira já baixou, acho que chegou a hora de postar. Bora.

Vista do interior da Galeria Melissa, em Nova York

A inauguração de uma loja conceito da Melissa em Nova York é mais um indício de que a crítica anda em xeque por essas bandas. Estamos sob a tirania do legal, em uma visão facebokiana de tudo. Ou você gosta e ganha um “curtir” ou não ganha nada. Ser criticar virou crime de lesa pátria.

Durante a apuração da matéria sobre blogs de moda que saiu na IstoÉ Dinheiro nesta semana, pesquisei sobre o caso #melissafail, trending topic do Twitter em pleno evento, um dos mais importantes da história da marca.

Para mim, teve muito de birra e ciuminho das fãs de Melissa.

Resumo para quem (assim como eu antes da matéria) não tem ideia desse imbróglio:

A Melissa conta com uma tropa de blogueiras chamadas de “melisseiras” (é esse o nome mesmo, não é sacanagem minha).

São fãs da marca que divulgam espontâneamente os produtos do selo da empresa brasileira Grendene. Ouvi que são pau a pau em termos de chatice com os Applemaníacos.

Em fevereiro, a Melissa inaugurou uma galeria em Nova York.

Convidou duas blogueiras do F*Hits, que não são melisseiras e estão longe de ser o público-alvo da marca, para cobrir o evento.

Esses convites são bem normais na imprensa hoje em dia – com os veículos em crise cada vez mais acentuada (apesar do bom momento da economia, vai entender), é cada vez mais comum depender da interessada pela divulgação da notícia para ter condições de fazer uma cobertura.

Não quero entrar nesse mérito, mas o ponto é que isso é prática corriqueira.

Acontece que uma das duas blogueiras, Camila Coutinho, criticou diversas vezes a Melissa antes da inauguração.

Na real, ela meio que achincalhava a marca dizendo que “não colocava plástico no pé”. Acho desnecessário, mas enfim, cada um na sua, até aí nada contra a sra. Coutinho.

Só que as melisseiras ficaram revoltadíssimas, por não terem sido convidadas e conseguiram colocar o tal Melissa Fail nos TTs do Twitter. Em pleno dia de morte do cantor Wando, tá?

Foi ciuminho, vai. Quer dizer que só pode convidar a claque para cobrir o evento?

Parem com isso. A viagem não era para premiar as duas blogueiras (embora a maioria das blogueiras de moda amem um jabá, que já é outra discussão).

O intuito de um comunicador é fazer uma cobertura isenta. Se a inauguração foi ruim, publique-se. Se foi ótima, também.

O fato da marca chamar gente crítica é uma prova de que está disposta a passar pelo crivo de seres que pensam. Não sou ingênuo. Não acho que os marqueteiros de Melissa sejam os novos cânones da liberdade de expressão. Provavelmente comeram bola ao não checar o passado da blogueira. Mas mesmo assim, não era para ter essa reação assim.

Fãs são ótimos, mas o aval desses não tem o mesmo peso de alguém que não tem um comprometimento religioso com a marca (andei vendo alguns blogs de melisseiras… olha, que bom que o ardor é dirigido para uma marca de grife e não para o terrorismo).

Aí fica a chantagem: “se não levar a gente, a gente chuta o pau”. Peralá, galera.

Sonho de plástico... ah, esses publicitários

Talvez alguém diga “sim, mas elas foram lá passear” ou “os textos que elas escreveram foi uma porcaria”. Embora sejam observações válidas, não é o foco da discussão e não foi o que motivou a revolta.

Merece registro a carta que a Melissa soltou em meio a toda a polêmica muito infeliz.

O gerente de marketing da Melissa, Paulo Antônio Pedó Filho, se dizia “surpreso” e “decepcionado” com as reações.

Pois internet é isso mesmo, camarada. Aqui qualquer um pode tomar revés. A via é de mão dupla.

Mas eu até dou um desconto para o cara. Pô, era um dia de festa, a conclusão de investimentos pesados depois de um ano duríssimo para a indústria calçadista.

Diante do dólar baixo e da China, Melissa usou o caminho de valorização de sua marca e de seu serviço para crescer, receita efetiva também contra os piratas. Aí no auge o cara toma um baque desses… é até compreensível escrever bobagem.

Em breve, no Trilhos Urbanos: você vai conhecer a situação da "Arte", uma palavra prostituída pelos publicitários

Eu vejo um paralelo entre esse mundo da moda e os blogs de tecnologia – dois assuntos ligados umbilicalmente ao consumo. O que tem de blog montado só para ganhar jabá e aplaudir quelquer m* lançada, meu amigo… bom, uma googlada basta.

Aqui no Trilhos empresas como Apple, Samsung, start-up brasileira, entre muitas outras que já receberam críticas negativas. Agora só por isso essas marcas estariam proibidas de mandar release para cá, convidar para coletivas ou comprar publicidade?

Se for assim, o poder econômico dessas corporações será pior mordaça que uma ditadura militar. Acho ótimo essas grandes marcas patrocinarem o livre pensamento. Vão conseguir agregar um valor ao “branding” que nenhum exército de puxa-sacos rasteiros conseguirá.

Aliás, uma mordacinha já rola nos lançamentos da Apple, onde blogs com boa credibilidade se ajoelham nos eventos da empresa puxando o saco descaradamente para continuarem sendo convidados. Como diria Millôr Fernandes, “quem se curva aos opressores, mostra a bunda aos oprimidos”.
*****
Isso não significa que vou posar de garoto propaganda de alguma marca. É bem básico isso, mas faço questão de ser didático e repetir. Vou usar eu, Trilhos Urbanos e Facebook apenas como exemplo ilustrativo para não machucar ninguém, tá?

Digamos que o Facebook compre um espaço publicitário aqui no blog. Pode postar um informe publicitário em forma de post afirmando que o site do Mark Zuckerberg é uma maravilha? Sim, desde que bem sinalizado que se trata de uma publicidade está relax.

João Varella pode escrever o texto no Trilhos dizendo que o Facebook é uma rede social maravilhosa? Sim. Redator publicitário é uma função válida e o nome não aparece como autor do texto.

João Varella pode assinar esse texto ou posar em uma foto abraçado a Zuckerberg e fazendo sinal de joinha? Não. Salvo que queira enveredar de vez no ramo da publicidade, não posso.

Por quê? Porque uma vez feito isso qualquer elogio editorial que eu faça ao Facebook, por mais que seja justo, vai parecer que é propaganda. Ou qualquer crítica, por mais que seja justa, a um concorrente, vai parecer que é propaganda. Entenda como mais um daqueles deveres que jornalistas devem ter. Blogueiros que emitem opinião e que recebem regalias destinadas a meios de comunicação também deveriam ter restrições, mas aí a gente vai estender demais o papo.

De qualquer forma, pelo jeito, se o Facebook compra uma publicidade aqui, a corja de blogs puxa-sacos vai fazer tanto barulho que é melhor deixar para lá. Prefiro deixar os bilhões de Zuckerberg intactos a me incomodar com isso.

No mais, a gente não vende espaço publicitário mesmo.

CONTEÚDO DE:
tecnologia

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5 respostas a #melissafail: uma chantagem

  1. Natália disse:

    (embora a maioria das blogueiras de moda amem um jabá, que já é outra discussão). Se vc ganhar uma viagem para NY não vai amar? aham tá!

    Eu arrancaria a roupa todinha e sairia gritando pelada no soho inteiro! e olha que eu nem sou blogueira.

  2. Renata disse:

    Eu concordo com algumas partes, a marca investiu em "formadoras" de opinião e não em blogueiras que já faziam propaganda da marca de graça. Onde a marca errou? Poderia ter dado um pouco de carinho também para as "melisseiras". Sugiro ler outros textos sobre, pois até eu que sei pouco sobre o assunto, li notas das melisseiras explicando que já sabiam sobre a ida a NY das blogueiras famosas, e que estavam protestando contra outras atitudes grosseiras da marca, o que me fez achar que chamar de "ciuminhos" é precipitado.

    • João Varella disse:

      Renata, o fato de saber antes não invalida que elas chutaram o pau por não terem recebido o tal carinho da Grendene.

      Indo para o lado marketeiro da discussão, concordo que a marca deveria pensar mais nas fãs. Mas às vezes, acho que é efetivo. A Apple volta e meia faz umas maldades e, mesmo assim, consegue ter a marca que tem.

  3. Cristina disse:

    Gostei da abordagem. Acho que blogs como os da Camila (e os demais F*Hits) já perderam a característica de blogs há bastante tempo. São revistas online e que, como tais, publicam aquilo que lhes é lucrativo. Cabe ao leitor ter olhar crítico de não aceitar tudo, até porque realmente a cobertura do evento da Melissa foi sofrível.

    Criou-se essa cultura meio esquisita ultimamente…eu até tenho um blog que atualizo a cada ano bissexto mais ou menos, e eu falo do que quero, do jeito que quero e sem esperar nenhum retorno de marca alguma por isso. Só que agora, se a blogueira faz ´´publicidade espontânea´´, ela espera o retorno e ai se não vier nada…

  4. Pingback: Conar e Procon proíbem publicidade disfarçada em blogs | Trilhos Urbanos

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