Humanidade para a arquitetura

Havia um arquiteto em meio ao time de pensadores que se apresentaram na suntuosa Sala São Paulo no evento Fronteiras do Pensamento.

É a segunda fez que o evento acontece em São Paulo e tem como objetivo promover palestras, digamos monumentais, de pensadores, cientistas e líderes que estão na vanguarda do pensamento dentro de suas áreas de pesquisa e atuação.

Eu diria até que tal notabilidade muito tem a ver com a capacidade de promover estas ideias. E isso explica um pouco a participação de um arquiteto em meio a pensadores talvez até mais eruditos que Sinclair.

Cameron Sinclair é britânico, mas mora atualmente na Califórnia. Ele tornou-se um especialista em produzir arquitetura em regiões atingidas por catástrofes, sejam elas naturais ou sociais, ao redor do mundo.

Como ele mesmo apresentou em sua palestra, os ventos sopraram ao seu favor a partir de um trabalho no sul do continente africano. Sua equipe estava trabalhando com uma comunidade em que as mulheres estavam massivamente atingidas pela AIDS.

Encontrou uma enfermeira local que praticava futebol e percebeu que o esporte podia ser tão eficiente para o bem estar das garotas quanto o suporte médico que recebiam dela.

Fez o projeto para um centro esportivo e começou então a buscar os recursos para viabilizar a obra. Sem sucesso com a abordagem inicial, soube que seu projeto havia sido premiado na Dinamarca. O prêmio? Exatamente o valor que precisava para construí-lo.

Buscou o premio e deu início às obras.

Concluídas com sucesso elas confirmaram as expectativas e chamaram a atenção de outros interessados. Um dia recebeu um telefonema de um senhor que perguntava se era ele o especialista em construir centros esportivos de futebol na África. Hesitou em considerar-se um especialista de uma obra só, mas afinal disse “sim, sou eu”.

“Somos da FIFA e estamos interessados em implantar outros projetos como o seu por todo o continente africano” disse o senhor. Era 2010, o ano da primeira Copa do Mundo de Futebol na África.

Logo em seguida surgiu a Nike e o modelo se espalhou para o mudo, como uma confirmação de que seu trabalho vai além de um oportunismo ou golpe de sorte, embora estes fatores demonstrem sua capacidade de lidar com as eventualidades.

Sinclair é excêntrico em relação ao que considerarmos normal no mercado e na atuação do arquiteto. Sintetiza isso com um slogan pessoal “Nem Ego, Nem Logo”. Toca em duas questões que atualmente se confundem em que a imagem ou ideia de um profissional ou empresa ultrapassam e muito suas reais capacidades ou ações.

Para a arquitetura e para aqueles que acreditam nela, ele deixa algumas lições:
Como criar novas estratégias para viabilizar projetos em que investidores e usuários não são os mesmos e ainda assim garantir os interesses destes usuários.

Como desvendar neles suas próprias demandas, interesses e exigências tornando-os ativos na elaboração dos projetos.

Como o arquiteto pode ser um profissional de iniciativa autônoma que cria suas próprias demandas de trabalho na observação criteriosa das demandas do espaço urbano.

E por fim, perceber que as necessidades urbanas vão além de serviços básicos de uma concepção geral e ao mesmo tempo pessoal de cidade de muitos arquitetos, mas perceber que é preciso compartilhar esta concepção entre as pessoas para que ela possa construir esta ideia de cidade juntas.

Architecture for Humanity

CONTEÚDO DE:
cidade

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