Vermelho faz teatro tradicional irradiar

Em um bate-papo informal depois da peça Vermelho, da qual é protagonista, Antônio Fagundes disse que antes dessa obra tinha resistência em aceitar pintores que exigem a leitura de “oito livros para serem entendidos”.

Pois Vermelho também exige alguma leitura. Nada tão profundo, mas vale a pena dar uma olhada na Wikipédia nos verbetes de Mark Rothko, que é o foco da peça, Expressionismo Abstrato, Jackson Pollock, Michelangelo e Picasso.

Ou chegue um pouco mais cedo para ler o folheto. Ali há sucintas explicações dos movimentos, artistas e obras citadas na peça. Essas mesmas informações estão expostas na parede da antesala do teatro. Assim, você não perderá o prato principal da obra, que são as discussões de história da arte.

E mantenha o foco nisso. É uma tentação se distrair com o fato de Antônio Fagundes ter chamado seu filho Bruno para contracenar a peça. Por sinal, isso tem dado bastante mídia para a obra, o que é sempre bom – qualquer coisa que estimule alguém a ir ao teatro é positivo.

Como a peça é centrada no diálogo entre artistas de diferentes idades em distintos pontos na carreira, na relação mestre-discípulo e num freudiano choque geracional , quem for buscar a relação pai e filho vai acabar com um paupérrimo Video Show Live.

Vá sim preparado para uma obra de teatro sólida, com um roteiro que abusa das licenças poéticas para dar um ponto de vista sobre Mark Rothko.

O texto é assinado pelo roteirista de blockbusters John Logan (O Último Samurai, Hugo, Gladiador, Rango, O Aviador, entre outros filmes que você provavelmente viu, mas nem prestou a atenção em quem firmava o roteiro).

Para reunir uma série de dados históricos de Rothko, Logan criou o personagem fictício Ken, um jovem artista interpretado por Bruno. Ele tem uma constituição supérflua e frouxa, com uma tragédia familiar no passado meio clichê, mas sua função é servir o protagonista. Ele faz uma série de interpretações sobre as pinturas de Rothko, reaciona à personalidade do artista e serve de interlocutor para relatos factuais. Pena que a tragédia de Ken, que perdeu os pais quando criança, sirva apenas para mostrar como Rothko reage. Muito blá blá blá para pouco substrato.

Rothko topou fazer os quadros do Four Seasons pelo que hoje seria equivalente a US$ 2 milhões. O quadro “Orange, Red Yellow” foi vendido recentemente por US$ 86,9 milhões

A peça se passa no período em que Rothko trabalhou em uma encomenda de quadros para o glamuroso restaurante Four Seasons, de Nova York, mas há referências a períodos posteriores e anteriores da carreira do artista o tempo todo – o suicídio dele, por exemplo.

Esse arranjo de Logan para condensar a biografia do pintor letão radicado estadunidense pode ser visto como uma simplificação que coloca o passado documental a serviço do entretenimento. Concordo, apenas retificando a palavra entretenimento por arte. O “respeito à história” serve para atender um nicho de chatos, que vão enlouquecer buscando alterações à realidade. No teatro, a prioridade é o teatro. “Respeite e depois mate o pai”, como diz um dos personagens em um dos pontos altos da peça.

Em termos de linguagem, Vermelho é uma peça quadrada feito uma tela de Mark Rothko. O próprio artista é mostrado como um quadradão: trabalha em horário bancário, escuta sempre o mesmo tipo de música e tem convicções intransigentes. A força das interpretações dos Fagundes na peça age como as cores de Rothko, servindo como uma pulsação forte em meio a uma estrutura tradicional.

Bruno consegue sair da sombra de Antônio mais para a metade final da escalada de crescimento de seu personagem, quando o assistente já se sente a vontade para questionar. Antes, parece estar preocupado em dizer e interpretar o texto. Lhe falta fazer o personagem ouvir também, o que é às vezes mais importante. Mas dê um grande desconto ao garoto, que está pegando uma bucha enorme ao topar esse papel, o terceiro de sua incipiente carreira teatral.

Outros elementos que merecem destaque são a iluminação e cenografia, que souberam aproveitar muito bem a temática. As reproduções das pintura de Rothko reagem à luz criando auras tênues. Em um momento, quando os dois atores pintam uma tela de vermelho, a cor parece irradiar.

Essa beleza grita, quer você tenha lido livros ou não.

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Fiquei constrangido com as risadas que o público dava sempre que um palavrão era dito pelos personagens.

Não importava se a frase era dramática ou servia para representar uma explosão de fúria dos personagens, qualquer palavrão dito pelos atores era acompanhado por risadinhas.

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Vermelho rendeu uma das mais belas capas de revista que já vi, na edição do mês passado da Bravo!

VErmelho

Revistas amassam ao serem transportadas em mochilas

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Depois da peça, os atores promovem um bate-papo com o público, em que falam um pouco mais sobre a Rothko e arte. Fique. Uma proposta simples e formidável para sair do teatro com algo a mais.

CONTEÚDO DE:
arte

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5 respostas a Vermelho faz teatro tradicional irradiar

  1. joao, que belo texto. também fiquei constrangido com as risadas. e também com as perguntas do bate-papo, tipo: o cenário é tao bonitinho…mas, como é trabalhar com seu filho?

  2. Pingback: Que coisas se perguntam os artistas? Será que pergunta de artista tem resposta? | Trilhos Urbanos

  3. Caí no site "sem querer" procurando por uma maneira de encontrar o roteiro da peça Vermelho. Gostei muito do trabalho de vocês e voltarei.

    Também gostei do texto sobre a peça. Achei bem diferente do que a mídia tradicional tem publicado e concordo com os pontos levantados por você, João. Parabéns!

    Se por acaso, tiverem alguma idéia de como posso encontrar o roteiro da peça, por favor me deem um toque.

    Grata,

    Tatiana

  4. Pingback: Antônio Fagundes dá aula sobre Rothko | Trilhos Urbanos

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