Por Juan Tellategui*
Muitas vezes as correntes de pensamento vindas das artes, das teorias das artes ou da filosofia acabam se compreendendo aos poucos por alguns setores das sociedades mais inquietos. Hoje está muito em voga incorporar à cotidianidade algumas delas, como forma de ter no estilo de vida “uma visão poética”. Um olhar “intencionado” sobre aquilo (objeto de arte) que “nos interessa”. Uma das ultimas tendências tem a ver com se sentir alheio de tudo, quer dizer, entender a cada “objeto”, seja ele animado ou inanimado, como um estrangeiro, estrangeiro de nós. Assim como também o nosso próprio corpo é alheio e estrangeiro de nós.
É uma magnífica estratégia para que cada vez mais pessoas possam ser atingidas pela inenarrável experiência de ter uma relação de interpelação com uma obra de arte, ao menos uma vez. A necessidade comunicativa, que vem incorporada no nosso DNA de humanos, é quem nos obriga, de alguma forma, a tentá-lo. Só que não nos detemos a refletir na profundeza que carrega essa imagem, a do estrangeiro, para nos aproximar à experiência.
Se estivermos no estrangeiro, não teremos alternativa. Entraremos em contato quase de forma obrigada, com outra língua, outros costumes, outra cultura, que pode ser mais ou menos próximas às nossas. Mas sempre, mesmo que inconscientemente, alguma coisa vá expressar e também decodificar a semiótica (estudo de todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas de signos, isto é, sistemas de significação) dos gestos, das intenções da fala e ainda palavras de um idioma que não conhecemos. Coisa que já temos experimentado uma infinidade de vezes quase sem perceber, como diz a velha e muito conhecida frase: “Um olhar fala mais do que cem palavras”.
Esse encontro com o estrangeiro estabelece pelo menos dois de alguns possíveis pressupostos.
Um deles é a relação do que eu chamo de aproximação impune. Isto é, aceitar de fato que esse encontro sucederá de qualquer modo. Assim, baixamos algumas barreiras de resistência (que todos nós temos) e logo nos abrimos ao encontro no encontro. Trata-se de uma abertura à confiança, para se aproximar àquele “estrangeiro”, sem prejuízo, é dizer, juízo prévio, ou seja, sem preconceito. Finalmente se deixar contaminar por aquilo que não conheço, nem tenho por que conhecer de antemão, “o estrangeiro”. E nessa aproximação poder perceber o seu universo. Outras realidades possíveis, alternativas, que me fazem refletir, nesse dialogo, a minha própria realidade.
A outra relação seria a do afastamento idealista ou científico. Quando falei anteriormente que eu posso ser estrangeiro de mim, me referia à velha oposição entre sujeito e objeto do idealismo onde o próprio Eu é o objeto para o sujeito (Eu). Isso é estabelecer aquela distancia que possibilita ver as coisas com mais clareza. Um olhar de outra natureza, distante, e talvez com frieza analítica. Afastando-me posso distinguir o geral de certa quantidade de informações que aparecem como dados, sensações, emoções, e muita coisas mais, da primeira relação “impune”.
A partir desses dois tipos diferentes de contato se estabelece o diálogo, onde posso perguntar-lhe a uma obra de arte coisas como: Por que tem essas cores? Por que essa distribuição no espaço? Por que essas formas? Por que esses sons, ou esses silêncios? E com certeza cada “estrangeiro” com quem façamos contato vai ter as suas próprias perguntas.
Ou seja, por tudo o que me chama atenção, por tudo aquilo que é uma estranheza para mim é por onde a obra estabeleceu a sua primeira fala comigo. Claro que, é um exercício como qualquer outro e precisa de sua repetição para chegar à prática.
Em cada encontro “intencionado” com esse estrangeiro, mediado pela relação de aproximação impune e de afastamento idealista vamos mergulhando no mundo proposto pelo artista, à cosmogonia de onde estabelece seu contato comunicativo conosco, e é importante pensar que tudo é proposital e nada por acaso.
Outras alternativas seriam: se situar como se estivesse no estrangeiro, ou seja tudo é estrangeiro a mim, e a outra é receber no meu ambiente ao estrangeiro. Essas são sempre formas de situar-se, para virar mais complexo o diálogo, onde eu estou parado para falar.
Agora falta só uma provocação para começar a experimentar. Sugiro aproveitar a última semana, prorrogada, da exibição dos Painéis “Guerra” e “Paz”, de Portinari, trazidos da sede da ONU em Nova York e expostos em São Paulo pela primeira vez. E que tenhamos todos uma boa viagem!
Serviço
Onde: Memorial de America Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 - Barra Funda – São Paulo)
Quando: de terça a domingo de 9h às 18h
Quanto: Entrada Franca
Informações: tel. (11) 3823-4600 e www.memorial.org.br
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* Juan Tellategui é ator argentino. Atualmente mora em São Paulo








