Um casal se desentende. Os motivos são pesados e envolvem o diário da amiga da menina, que diz que ela tem que parar de reclamar do namorado e terminar logo com ele. O diário é descoberto e o cara, lógico, depois dessa quer terminar tudo.
Ela vai até a casa do cara, que nunca tinha ido antes, pede desculpa, diz que o diário da amiga não representava o que ela mesma pensava. Ele torce o nariz, mas cede. E vão pra cama. No que era para ser o clímax da relação em que os dois estão ali, nus e cavalgando um sobre o outro, ela tem um troço, bate a cabeça na cama de cima da beliche e diz que não, eu não quero mais ficar com você.
Historinha contada de uma amiga pra outra na faculdade? Talvez. Mas mais do que isto, o seriado Girls, nova aposta da HBO, recém-lançada nos Estados Unidos, apresenta uma nova versão da historinha, uma nova versão das amigas e, principalmente, uma nova versão do relato, do como contar aquele ataque histérico de “quero ficar com você, não quero ficar com você”.
A cena que contei mais acima aconteceu no episódio do último domingo. Foi criada pela mente de Lena Dunham, a nova garota prodígio da mídia americana. Ela tem 26 anos, é judia e seu currículo é recheado. Recheado de pequenas produções independentes, como o filme Tiny Furnitures, de 2010. Nascida em Nova York, ela usa o cenário da cidade, especialmente em Manhattan e no Brooklyn, para preencher os espaços de quatro garotas naquela fase em que a Capricho expõe na capa: “acabou a faculdade! E agora?”.
Não são meninas losers, como alguns críticos se apressaram em afirmar nos primeiros episódios. A personagem de Lena, Hannah, só tinha um estágio não remunerado em uma editora de livros, mas mora em um bairro legal do Brooklyn – o badalado Greenpoint – é inteligente, bonita e tem todo o tipo (e as frases) que qualquer outra menina quer imitar ou parecer igual. Se os pais dela estão cortando a “mesada”, não temos aqui o retrato da loser. Mas da nova composição demográfica dessa geração que acaba de se formar em uma faculdade ou acaba de sair do mestrado, mas precisa do dinheiro dos pais pra pagar o apartamento legal a duas estações de metrô de Manhattan.
Se Shoshanna é virgem, se Marnie tem um namorado coxinha e se Jessa completa o quarteto das personagens vivendo de babá, não há uma derrota nessa geração. Se o quadro pintado por Sarah Jessica Parker em Sex and the City era de mulheres independentes, empregadas e que podiam viajar a Dubai, como acontece nos filmes-catástrofes recentes da série, era de reflexo dos ideais feministas de algumas décadas, aqui a tinta derreteu ou se deteriorou com tempo. E em tão pouco tempo.
A deterioração dos valores feministas não é hoje, a meu ver, uma derrota das mulheres. Não é uma vitória dos homens. Quem ainda vive nesse mundo que coloca os dois lados em combate?
Há um princípio meio básico em literatura que diz que, quando você fala de seu mal, você o supera. Se o narrador conta a sua dor, ele a expõe e a ultrapassa. O professor loser de Lolita deixa de ser ridículo e deixa de ser loser quando conta tudo em detalhes sua paixão doentia pela garotinha. Em Girls é a mesma coisa. Se Lena Dunham, via Hannah, mostra como ela está acima do peso, como suas amigas são frustradas, como está ficando sem grana e como morar no Brooklyn está ficando caro demais, o espelho, mais do que refletir, engrandece. Narciso ensinou isso.
Se Hannah se corrompe e se vicia a um sexo meio baixaria com o cara que não é seu namorado, a subversão dos valores recai sobre uma visão mais careta e ortodoxa do sexo, onde o homem é quem dá as cartas e a mulher faz o que ele quer. Hannah não tira fotos na privada fazendo biquinho – Hannah fica imóvel no quarto enquanto o cara se masturba, por ordem e imposição do mesmo. O rodopio social desse erotismo, enquanto expõe a mulher como presa na teia de aranha, manipula e destrói com o poder do sarcasmo o discurso feminino mais machista e mais arraigado do homem americano e, por que não, mundial. Mandar fotinhos e ficar com nojinho na hora H não é do perfil de Hannah.
Watch and learn, Carol Dieckmann.














Olá! Só pra dizer que venho acompanhando o blog e tenho gostado bastante da forma como expressa as ideias… : )
Obrigado pela leitura. Bom saber que o Trilhos Urbanos tem acertado. Esperamos continuar sempre assim.
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