Depois dos intensos dias do Festival de Teatro de Curitiba, chegou a hora de dizer basta. Eis as últimas observações sobre as peças que vi no domingo (8), último dia do evento:
Outro Lado
Mais uma peça da subcuradoria Teatro para Ver de Perto, que trouxe alguns dos maiores destaques do Fringe deste ano.
Como eu tinha assistido Eclipse algumas horas antes, foi inevitável ver muita coisa em comum nas duas obras. Só que ao invés de cinco atores experimentando os efeitos de um eclipse solar, temos quatro personagens afundando em um bar decadente.
Assim como na peça do Grupo Galpão, há uma luz que surge de vez em quando. Só que ao invés do sol de Tchekóv do mais famoso grupo mineiro, a luz lateral e dura da companhia Quatroloscinco Teatro do Comum é ameaçadora, opressiva.
Outro Lado parece a versão sufocada de Eclipse. Uma pena que os jogos cênicos e quebras surrealistas fiquem exprimidas nessa obra, que tem pontos altíssimos, como no momento em que uma cantora começa a ver seus sonhos sendo realizados pelos outros personages. Talvez esse problema venha do fato de Outro Lado ter uma ancoragem na realidade mais forte – há músicas e elementos que dão uma data para onde se passa a trama, enquanto Eclipse é mais etérea.
Curioso, o plano onde as tramas de Eclipse, A Mudança, Quintal e Outro Lado se passam clamam por atenção e tem influência nas histórias. Parece ser uma tendência mineira (sim, vi quatro espetáculos e já posso dar vazão às minhas etiquetas perversas, MUHUHAHAHAHA).
Próxima peça…
Anjo Caído
Se quiser, é lícito desconfiar sobre minha opinião sobre a peça Anjo Caído já que a minha colega de trabalho Geovana Pagel atua na peça. Mas na boa, perco a amiga, mas não perco a oportunidade de dar pitaco.
Anjo Caído fala da criação da vida, em tom bíblico maniqueísta. Tudo muito sério e o texto não facilita a vida do espectador (há quanto tempo eu não ouvia “outrem”?).
Os quatro atores desenvolveram bem a expressão corporal. Há momentos em que tudo parece um grande ritual, com gestos repetidos e graves.
Em um momento, que representa um nascimento, bastou uma fonte de luz direta e um ator se arrastando para fazer uma grande cena. Poucos elementos bastam.
Hécuba
É tudo tão bom que a peça chega a ficar chata.
Cenário, coro, figurino, atuações… está tudo muito bem para representar a tragédia grega de Hécuba, mulher de Príamo e mãe de dezenove filhos, entre os quais se contam Heitor, Páris e Cassandra. Ela assistiu, em Tróia, à morte de quase todos e viu trucidar seu esposo, sua filha Policena e seu neto Astíanax (obrigado, Wikipédia).
O contexto é o ensejo para se falar de honra, vingança, crenças, tudo naquela toada exagerada para grandes teatros (no Festival de Curitiba, a peça esteve no Guairão).
É um belo museu, com uma boa recriação mitológico. Mas não passa disso.








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ei joão, sou ator do quatroloscinco. e agradeço seu retorno sobre Outro Lado. só não consegui entender sua frase: "Uma pena que os jogos cênicos e quebras surrealistas fiquem exprimidas nessa obra"…
abraços.
Oi Marcos
Me explico-me: achei que a dramaturgia poderia voar mais longe em termos de surpresas, paradoxos e jogadas com a narrativa se não tivesse tanta questão factual, relacionada com o cotidiano. Mas a peça é muito boa, de qualquer forma.
Abraço!
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