Como elefantes brancos

“Eu me sinto bem, foi o que ela disse. Não há nada de errado comigo, eu me sinto muito bem.”

É com essa frase, pronunciada com insegurança, que termina o microconto “Colinas como elefantes brancos” de Ernest Hemingway, escrito em meados da década de 1920. Apesar de eu ter começado do final, não significa que estou entregando nenhum spoiler até porque pouca coisa acontece de fato nessa história.

O que temos é um diálogo em algum lugar da Espanha de um casal esperando pelo trem na estação. Ele parece nervoso, impaciente, preocupado. Ela está aérea, distante, anestesiada. Conversam sobre uma cirurgia que ela terá de realizar (a pedido dele) para que “as coisas voltem a ficar bem novamente”. O estilo bem característico de Hemingway se deixa marcar na troca de frases em que o homem responde sempre bruscamente, como se a garota vivesse em um outro universo, mais distante e irreal, como as colinas que observa ao longe e as compara a elefantes brancos, pois são longas e brancas.

- Parecem elefantes brancos.
- Nunca vi um.
- Não teria como mesmo.
- Eu poderia ter visto. Você quer dizer que eu não teria como não prova nada.

O tom é ríspido e a conversa já se mostra desgastada, retrato de uma relação que não funciona há algum tempo e que algo na garota só fez piorar. Pode ser uma gravidez indesejada, mas o conto apenas dá pistas nesse sentido, especialmente quando eles conversam em termos de “já não é mais nosso” e “depois que tiram, você nunca mais pega de volta”.

O conto faz parte dessa coletânea com esse nome genial.

A fotografia, o registro daquele momento, é magistral nas mãos de um contista como Hemingway. Como se alguém estivesse passando por aquela estradinha nos confins da Espanha, parado o carro, entrado na estação e tirado uma foto do casal se entregando ao álcool, ele com um olhar direcionado talvez à barriga da garota e ela com um olhar impreciso pela janela, onde lá fora as colinas pareciam elefantes brancos.

Com essa composição instantânea, quase como uma Polaroid que se autoregistra no exato momento do clique, o narrador apresenta a seu leitor um universo particular, tão íntimo a seus personagens que não nos é mais permitido saber se a garota está grávida e o cara pede para que ela aborte ou se o “seguir adiante”, reiterado por ele no conto, significa uma despedida anunciada ou um “let’s stay together for good”.

Não cabe a nós saber. Nosso futuro é tão incerto quanto a natureza estéril daquelas colinas cobertas pelo branco, que ajudam a sugerir e criam a imagem de algo infrutífero a sair de seu ventre. As árvores ao longo da margem do Ebro com os campos cobertos de trigo nos jogam na cara a oposição mortal que nos arrasa diariamente. Se para a garota serve como contraponto às colinas secas e brancas mais ao fundo da paisagem e apresenta o conflito à garota (vida ou morte?, seguir adiante para onde?), para o homem é um choque que precisa ser evitado. Por isso ele não olha para a janela. Nesse sentido, também o seu futuro, de quem tenta impor escolhas à garota, está nas mãos dela e do que ela pode interpretar desse cenário espetacular mas aterrorizante.

ps: vou tentar falar mais sobre literatura por aqui, sobre as minhas histórias preferidas. Espero que gostem!

CONTEÚDO DE:
arte

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