Shit now occupies MoMA

Texto de Thiago Blumenthal, do Kapores!
Fotos de Juliana Cunha, do Já Matei por Menos

Líderes do grupo gravaram vídeos deles mesmos durante a manifestação

A arte moderna em seu estado mais bruto e cru. Em forma de cocô. O que poderia ser uma inspiração vanguardista de Marcel Duchamp ou mais uma nova polêmica envolvendo Damien Hirst não passava de um protesto da turma do Occupy Wall St. em pleno Museu de Arte Moderna de NY, o MoMA.

Estávamos visitando a exposição de Diego Rivera, que relembra os murais que ele fez em NYC em 1931. Absurdamente lotada, decidimos subir até o último andar e passear um pouco, com mais calma e menos gente, pelas exposições permanentes. Quando passávamos pelos autorretratos de Frida Kahlo, começou o cheiro. Fezes. Não o odor da flatulência, mas das fezes elas próprias. De onde vinha? Os seguranças ficaram atônitos sem saber o que fazer. O chão não apresentava nenhum indício de sujeira em lugar algum, mas o cheiro era insuportável. E os visitantes, turistas ou não, caminhavam em círculos pelas obras de Modigliani, Chagall, Henri Rousseau com as narinas tampadas.

Um cara passou por mim e brincou se aquela brincadeira invisível não era uma alguma forma de protesto, no que eu respondi: “protesto de quem? para quem? onde?”. Ele não fazia ideia, nem sabíamos se aquilo era resultado de algum protesto ou se algum turista infeliz tinha pisado em um cocô enorme e então estava espalhando o mal por um dos museus mais sofisticados do mundo.

De repente, uma gritaria. Fomos procurar, Juliana com a câmera nas mãos. Vinha de lá embaixo, no térreo, de onde o cheiro parecia pior. Sabia agora que se tratava de algum protesto, mas, até esse momento, ainda não tinha conseguido perceber que eram os líderes do Occupy Wall St. Uma turista japonesa não sabia se admirava o Hopper à sua frente, se fotografava a arquitetura local, se saía correndo com as narinas tampadas ou se seguia as dezenas de pessoas organizadas pelo grupo que, para alguns, se denotava terrorista. Por quase uma hora, o Occupy Wall St. atraiu a atenção de boa parte dos visitantes como se fossem eles a principal obra de arte.

Meu humor foi para o espaço. Já irritado com a quantidade de gente para ver Diego Rivera, ainda me vem essa. Museu lotado, cheiro de coliformes fecais, e, a cereja do bolo, a gritaria desnecessária e incoerente do Occupy. No entanto, senti aquela história que arrepia todo jornalista: perfect place, perfect timing. Fiz-me de editor da vez, botei a Juliana pra fotografar e falar com aquela gente, enquanto eu falava com o staff e a segurança do museu. Descemos para a fonte das fezes.

A minha primeira pergunta para os seguranças foi enfática: eles pretendem ficar aqui? Eles vão “ocupar” o MoMA? Mais enfática foi a resposta: eles não podem ficar. Mas eles querem ficar? Não sabemos, só sabemos que eles não vão ficar.

Se necessário, usariam a força e a NYPD (polícia local) para retirá-los. E aquele cheiro? Eles não sabiam – o chão não estava sujo e em todas as partes do museu a situação já estava sendo controlada por uma sequência de “bom ar”, provavelmente improvisados na hora. Que cena.

Enquanto isso, a Juliana fotografava e falava com os representantes do grupo. Um deles, que não quis se identificar, mas é de Ohio, disse que a intenção deles não era ocupar o museu. Apenas protestar contra (1) as prisões que foram feitas em Wall St.; (2) o preço dos museus em NYC; (3) “a arte mentirosa” e uma outra infinidade de razões perdidas no labirinto espelhado de gente que culpa os visitantes do museu pelo sofrimento dos 99%. Como se todos nós ali não fôssemos parte dessa abstração que são os 99%.

Não, eles não queriam nem iriam se responsabilizar pelo cheiro no museu. Disseram que não fazia ideia de onde vinha. Resposta padrão, pois é permitido protestar dentro do museu, mas não é permitido causar esse tipo de transtorno – e então, se assumissem a autoria do “ato terrorista”, seriam presos imediatamente.

Eu, que quis manter distância da turma e joguei a Juliana na cova dos leões, fui me aproximando do grupo onde os funcionários do museu acompanhavam de perto toda a gritaria. Um deles me disse calmamente que aquilo já ultrapassava os limites de liberdade de expressão artística que o MoMA sempre abraçou. Era demais, não havia senso de humor, ele me sussurrava no pé do ouvido. E todos seriam colocados para fora, que isso ficasse bem claro.

Depois que dois dos “ocupantes” subiram até o último andar e estenderam uma faixa enorme com dizeres que só eles entendem, o que gerou uma espécie de êxtase coletivo por parte dos que berravam ali no térreo, a coisa se acalmou e eles foram pouco a pouco se retirando dali. Segundo um deles, o plano agora seria ocupar as igrejas do Village, bairro tradicional e boêmio de Manhattan. Aliás, pelo que andei nos últimos dias, já vi duas deles sendo ocupadas – ou em processo de ocupação – por lá.

Dia histórico. Inegável. Mesmo que negativamente. O dia que as fezes invadiram o MoMA.

Modern art makes me want to rock out. Really.

CONTEÚDO DE:
arte, cidade

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5 respostas a Shit now occupies MoMA

  1. Livia Cunha disse:

    Impossível respeitar o "movimento" desse jeito. "Art is a lie"? É o que está escrito na faixa? E eles estão reclamando dos preços de museus em NYC? Praticamente todos têm um dia gratuito. Qual é o ponto? Tanto lugar sem museu, tanta gente sem saber nada sobre arte… Desnecessário achei.

  2. Isa disse:

    Os museus são caros e nem todos tem um dia free. Mesmo o Moma não tem o dia todo free, só 4horas!

  3. Quase todos os museus de NYC tem preços acessíveis, inclusive o espetacular MET, onde só pago 2 dólares e justamente por isso posso ir lá muitas vezes a cada visita na cidade.

  4. Pingback: Occupy MoMA « Já Matei por Menos

  5. frederico1988 disse:

    O MASP está precisando de uma Ocupação, mas ela pode ser menos mal cheirosa!
    A questão é que a Arte tem sido um dos maiores mercado da camuflagem no mundo principalmente depois dos anos 90. Kassel é a maior produtora de armas da Alemanha e abriga um dos maiores eventos de artes do mundo. Inhotim foi uma lavanderia de dinheiro no Brasil. As reformas dos edifícios dos bancos da Avenida paulista que se tornaram centros culturais ao mesmo tempo que outdoors deles mesmos foram pagos com dinheiro da Lei Rouanet.
    A arte sempre foi um baluarte da rebeldia e da inocência e realmente considero ela como tal, mas como quase tudo que também foi isso um dia, também ganhou um preço e foi inserida no que costumamos chamar de lógica do mercado. É como aquelas calças rasgadas que já compramos rasgadas.
    NÃO ME REFIRO AOS ARTISTAS NECESSARIAMENTE, ME REFIRO AO QUE INSTITUIÇÕES E PATROCINADORES FAZEM COM O TRABALHO DELES. Principalmente no Brasil o que temos é um show de marionetes zumbis. A arte e as politicas culturais não estão sendo feitas por ARTISTAS mas sim por burocratas, produtores, donos de galerias, patrocinadores que se apropriam do trabalho e do legado de artistas principalmente mortos para valorizar suas coleções. Lembra da história de que o quadro vale mais depois que o artista morre?
    A recente retomada dos Neoconcretos Brasileiros também se deu depois que o MoMA comprou trabalhos de Hélio Oiticica por preços monumentais no fim dos anos 90. Fomos capazes de esquecer e subestimar artistas talvez mais jovens do que nossos pais e avós e só nos demos conta de como eles são impressionantes depois que os gringos vieram, compraram e nos pediram para dar importância a nossos próprios artistas.
    Os comentários rápidos que vemos aqui, são sinais de como a camuflagem tem funcionado tão bem que nós mesmos acabamos cobrindo o lobo com a mesma pele dos nossos artistas ovelhas.

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