Medianeiras fala de amor em Buenos Aires

Tem gente dizendo que o filme argentino Medianeiras bebe do cinema francês para contar uma história de amor.

Só para quem acha que  cinema francês é Amelie Poulain. Medianeiras pega seus enquadramentos e argumentos do cinema romântico (com neurônios) dos EUA.

Além de Woody Allen – que chega a aparecer em uma cena com um dos seus filmes antigos -, dá para notar um ar de filmes como 500 Dias com Ela em Medianeiras.

O filme é um passo adiante importante do cinema argentino, que finalmente conseguiu fazer um filme de qualidade, com apelo comercial e sem o ranço nostálgico.

O último diretor que conseguiu essa proeza foi Fabián Bielinsky, que morreu em São Paulo.

Em seu primeiro longa metragem, Gustavo Taretto traz uma linguagem esperta para falar de um tema já meio batido, mas que dá margem para algumas experimentações: a solidão das cidades cheias de gente.
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Medianeiras traz ideias e pontos da cidade de Buenos Aires que não estão necessariamente nos guias turísticos.

É o que os nossos irmãos do norte fazem muito bem com sua Nova York. Elementos da cidade como Brooklin, Queens, Times Square, Carnaggie Hall, Estátua da Liberdade, etc, soam familiares mesmo para quem nunca esteve por lá.

Essa maneira de retratar a cidade teve o aval de nomes de peso da cultura argentina, como o jornalista Jorge Lanata e a atriz que faz filmes à granel Inés Efron (em boa atuação, mas com seu imutável tom para construir personagens desajustados).

Mas Medianeiras pesa um pouco a mão na caricatura com uma densidade fora da medida.

O aperto da salinha do doutor, a aula de natação superlotada, as tomadas nas calçadas cheias de gente… tudo está absurdamente gritante, mas nada grave, o tom da película é de blague mesmo.
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Aí chega naquele ponto que eu devo avisar que para avançar a discussão, devo entregar um pouco do enredo. Sinceramente, não acho que vá atrapalhar quem for ver o filme. Aviso só para evitar a fadiga.

A solução mágica do final de Medianeiras está de acordo com o pior do cinema americano, que pede impõe um happy ending em qualquer filme pop.

Acho que Medianeiras ganharia muito se simplesmente os dois não ficassem juntos no final.

São dois personagens incompletos, cuja distância física é mínima. Porém, o fluxo intenso da cidade os priva de se conhecer e ter uma relação maravilhosa que o filme empurra por meio da edição e de efeitos o tempo todo.

Isso estaria de acordo com a tese do filme.

Mas não, uma maldita cena final faz os protagonistas se encontrarem de maneira para lá de forçada.

Não sou contra surpresas mágicas em um filme. Ficar avançando um roteiro só por silogismos e lógica é coisa de robô. Agora, o filme ia durar mais na memoria com um final mais aberto, sem o “e então viveram felizes para sempre”.

Fica a impressão que as vivências que os dois têm em paralelo são um mero empilhamento de situações curiosas. Vira um Sex and the City portenho (aliás, confesso que nunca vi nem um episódio desse seriado, mas já li/ouvi falar tanto sobre ele que é como se tivesse assistito uma temporada inteira).
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Falando em pesar a mão, o subtítulo Buenos Aires da Era do Amor Digital é um golpe baixo.

Tudo bem, um dos dois faz sites e parece ser bem ligado com tecnologia. Sim, os protagonistas entram em um chat de MSN uma vez. Mas daí a dizer que é “Era do Amor Digital” é um longo caminho.

Jogada do marketing para tentar arrebatar o povinho antenado, que vai gostar do filme não por ser um pastiche ou fazer menção de redes virtuais. Sim por esse ser um público aberto a uma linguagem mais videoclip.

De qualquer forma, baixo. O filme fala de amor e ponto.
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Medianeiras não deixa de ser um filme divertido.

CONTEÚDO DE:
arte, cidade

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3 respostas a Medianeiras fala de amor em Buenos Aires

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