Hoje no R7 eu dei uma rápida repassada na Bienal Sesc de Dança, que rola em Santos até a quinta-feira (8).
A proposta do R7 é ser um portal popular. Para falar de artes visuais ou dança, tem que ser meio didático e diretão.
Vestígios merece mais algumas linhas. E para discutir a apresentação, tenho que contar o final.
Não acho que perca a graça, mas fica o spoiler alert registrado.
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Obra criada e “interpretada” (já explico as aspas) de Marta Soares, Vestígios foi apresentada na Bienal de Dança do Sesc na Cadeia Velha de Santos, que fica logo ao lado da rodoviária.
A pesquisa coreográfica foi desenvolvido para o Programa Rumos Itaú Cultural Dança.
A primeira imagem deste post é o que o espectador vê no primeiro momento da instalação. Um monte de areia em cima de lascas grossas de rocha, que por sua vez estavam acima de uma mesa de madeira, um ventilador e duas telas.

O som concretista remete a elementos naturais. Há estrondos (que assustam alguns), mas nada parece vir de instrumentos ou eletrônica.
Os poucos mais de 30 espectadores podiam circular a vontade.
Vagorosamente, o ventilador começa a revelar o corpo de Marta Soares abaixo da terra. Ele sopra tudo o que não é mulher – um conceito que nos leva ao elementar da escultura.
Mas essa não é uma bienal de dança? Sim. E isso faz de Vestígios, apresentada em meio aos corpos de beleza grega dos bailarinos que estão pela cidade ainda mais rico.
O ventilador está moldando um corpo. Se quiser enveredar por uma chave de leitura bíblica, o ventilador é Deus.

Adão foi criado do barro, areia molhada. A Eva de Marta Soares vem do grão seco.
Os sons ajudam a reforçar a sensação de criação intensa da natureza. Ora mar, ora uma avalanche. Há um trabalho enorme e poderoso sendo feito, se você se fiar pelo áudio.
(O vídeo eu achei no YouTube, não é da apresentação em Santos).
Porém, essa força não significa de maneira alguma pressa.
Muito fácil seria colocar vários ventiladores e fazer a obra durar cinco minutos.
Não. A criação tem a virtude da paciência.
Para contemplar e sentir a força do tempo.
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O jogo fica mais interessante se levarmos em conta o símbolo que a areia carrega. É a deterioração. Vestígios só podia ter sido realizada em meio as paredes de pintura craquelada de uma das celas Cadeia Velha de Santos mesmo.
Areia é uma pedra esfarelada, velha.
Um passo adiante nessa trilha é o fato de ela estar enterrada, que remete a morte.
Marta Soares desenvolveu Vestígios estudando os sambaquis de Santa Catarina, antigos cemitérios indígenas pré-históricos.

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A areia não é bem-vinda. Apesar dos santistas conviverem com a areia, todos querem estar do lado contrário dela. Assim, o ventilador sopra de um lado, o que cria uma ferradura de areia no chão.
Os espectadores criam outra ferradura no sentido contrário e mais ampla no sentido contrário, ficando atrás do ventilador.
Assim, quem assistiu a obra ficou mais próximo das pernas de Marta Soares do que de seu rosto, que está na zona com mais areia soprada, logo, na zona menos adensada.
O público vagarosamente vai ganhando mostras de vida. Primeiro por meio de tufos do cabelo da artista. Depois, pelo tecido que recobre seu corpo. Tremulam pela força do vento soprado pelo ventilador.
Já quase no final dos 50 minutos de peça, é possível notar uma leve respiração no tronco da artista.
No final, ela não mostra o rosto, nem agradece os aplausos.
Exceto pela primeira, as imagens deste post são de Fernando Gazzaneo.











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